Escola do esquecimento
2 comentários Publicado por António Martins Neves 13 Janeiro 2008 em Portugal.
Estudioso Fernando,
não sei se foi a galinha ou o ovo a nascer primeiro, mas a questão da violência escolar que tanto preocupa a nossa sociedade por aqui, além de não ser nova, tem, na minha perspectiva, uma causa que foi transformada num tabu: a falta de autoridade de alguns professores somada à ausência completa de vocação pedagógica de outros tantos. A equação tem ainda a variável alheamento absoluto dos pais em relação à educação dos filhos.
Garanto-te que a situação agora não é muito mais grave do que na nossa altura, pelo menos a avaliar pela minha experiência enquanto aluno. Só que agora há mais gente a dedicar-se ao problema.
Tive um professor de ginástica que passou a dar aulas de matemática e acabou em funcionário bancário, outro que riscava a caneta trabalhos de desenho técnico, que levavam horas e horas a conseguir ganhar forma com o argumento de que estavam errados e hoje dirige uma escola. Levei um ano sem conseguir entender as regras das intersecções de planos com rectas, mas resolvi o problema com umas 10 horas de explicações. Fui a exame com a nota mínima, um oito, e tirei quase 13 na tal prova, que sabia toda, só que a falta de prática pela desmotivação acumulada em muitos meses não me deu o traquejo que me teria permitido realizar a prova toda.
Na mesma escola havia uma professora de ginástica que fez um teste aos alunos onde perguntava se um campo de basquetebol era quadrado, bicudo ou redondo…acabou em funcionária autárquica, felizmente.
Outro, que passava as aulas a fumar cigarros até metade, só se levantando da secretária para atirar as pontas pelas janelas, gostava de aterrorizar os alunos chamando-os ao quadro. Bloqueavam de tal forma que a humilhação terminava, depois de não saberem responder a nenhuma questão, com o ridículo de nem conseguirem dizer o próprio nome de tão enervados que ficavam.
Isto tudo agravado pelo facto de na escola, pelo menos uma vez, que me lembre, ter havido uma festa durante o período de aulas em que foi colocado álcool, julgo que vinho, à descrição dos alunos. Um cenário eloquente à luz dos actuais padrões…
Tudo “crimes” que já prescreveram, como agora se alega, dado que tudo aconteceu há uns 25 anos.
Da folha de serviço dos alunos da altura, igualmente nada edificante, constam, entre muitas desvarios, uma lagartixa na mala de uma professora, que ia morrendo de ataque cardíaco quando abriu o fecho e o animal saltou, saídas da sala pela janela quando o professor estava de costas, os mais injuriosos insultos racistas a outro, um aluno a discutir a nota com um docente espetando antecipadamente um facalhão na secretária que continuou a vibrar enquanto debatiam argumentos para passar ou chumbar…
De uma coisa não me lembro: da ida da polícia à escola. Nem de algum dos protagonistas destas e de muitas outras histórias ter enveredado pela marginalidade.
Não sei se pelo descontrolo absoluto e deixa andar dos decisores educativos, se pelo caminhar da sociedade assente na ausência de valores quase absoluta, onde pouco mais interessa do que ter dinheiro e poder, actualmente já há polícias especializados na violência escolar, pais a bater em professores, alunos que chumbam o ano por faltas antes do Natal…
No nosso tempo isso não acontecia? Talvez não. Ocorriam outros problemas, a que não era dada, infelizmente, a importância que mereciam. Ter-se-ia evitado esses fenómenos de violência gratuita praticada agora nos estabelecimentos de ensino. Empurrões, discussões, questões de afirmação entre adolescentes sempre hão-de existir. Tornar isso numa espécie de modalidade com aspirações televisivas é que não me parece que andasse nas mentes dos jovens. Agora, assobiem-lhe às botas e criem grupos de trabalho para estudar os fenómenos educativos. A solução não é simples, porque o problema não está só entre os muros da escola. Começa lá fora…
Mas deixa-me dizer-te que a competência, o mínimo de vocação e a formação adequada podem ajudar os professores a lidar com o problema. Desde que os pais façam o trabalho de casa, claro. Ainda não ouvi nenhum cientista dizer que quem se dá ao respeito não é respeitado. Afinal, as crianças só seguem os “valores” que vislumbram nos adultos.
Um abraço de um pai cheio de esperança.
António Martins Neves



Gostaria que me desse uma definição funcional de “dar-se ao respeito”. Durante a minha vida profissional tenho visto as coisas mais espantosas no capítulo da incapacidede de alguns adolescentes para compreender até que estão a desrespeitar tanto os professores como os e as colegas. Como pai deve saber que não é necessário bater nos filhos, mas que se tem de dar à criança a certeza de que não vale a pena tentar ultrapassar os limites. Esse padrão deve existir numa escola e no ensino em geral, julgo eu, e se os pais não o tiverem imposto, o sistema educativo terá de os substituir.
Vamos então falar de disciplina, de regras, de comportamentos inadmissíveis?
Os melhores cumprimentos e o meu pedido de desculpa pela diatribe.
Eu é que agradeço a interpelação. Passo a explicar o que considero “dar-se ao respeito”: trata-se de alguém que se faz respeitar pela sua presença, pela personalidade, pela firmeza de carácter, pela convicção e sustentação no que diz…No caso dos alunos, alguém em quem eles acabam por se rever, mesmo até inconscientemente. Recordo-me que integrei uma turma considerada “pouco fácil” no secundário que tinha comportamentos altamente reprováveis com uns professores e funcionava normalmente com outros, caso do professor de matemática, que também era a disciplina em que tínhamos mais dificuldade. Mas como se tratava de um “grande professor” que nunca levantou a voz, não me recordo de ter expulso alguém da sala e explicava a matéria com um empenho e uma dedicação contagiantes, os alunos não tinham alternativa a respeitá-lo, como ele nos respeitava a nós. É uma questão de postura natural, que pode até ser adquirida, em parte, com a ajuda de formação. Como saberá melhor do que eu, a culpa não está toda do lado dos alunos nem da família. Há professores cuja vocação não foi aferida por ninguém e que nunca se adaptam à função. Foram as contingências que os colocaram a ensinar. Isso acaba por ter reflexos negativos e é perceptível para quem está sentado à sua frente. Crianças e adolescentes (e até mesmo adultos) não perdoam “fraquezas” dessas.
Espero ter ajudado a compreender o que entendo por “dar-se ao respeito”.
Obrigado pelo seu comentário. Escreva sempre.
Cumprimentos,
António Martins Neves