Desterrado Fernando,
essa tua deslocação à ilha do Sal não foi ao fim do Mundo mas levou-te onde não há internet, pelo que não chega aí o Atlântico expresso a levar (e trazer) a correspondência. Não se sabe aqui que algum navio tenha arrancado um cabo submarino com a âncora, pelo que se fica à espera que aue as autoridades daí justifiquem porque foi interrompido um serviço público fundamental em qualquer país, e por maioria de razão, num dos estados com melhores índices de desenvolvimento em África. Já me sentei, mas não desistirei de esperar.
Falhas inexplicáveis à parte, venho hoje preparado para te dar uma novidade: já podemos ir literalmente para o céu depois de morrermos, ou mesmo para Lua.

E nada tem a ver com religião, como deves calcular. É mesmo uma questão de ter dinheiro, como para quase tudo na vida. Quem tiver 10 mil dólares (cerca de 6.300 euros) pode ver um grama das suas cinzas depositados na Lua por uma empresa norte-americana, claro, que já largou em voos espaciais restos mortais de milionários que pagaram para isso valores que as notícias por cá não especificaram.
Algo que até há pouco só as religiões diziam assegurar passou a ser proporcionado a quem tiver dinheiro suficiente. E mais um negócio a render com algo impensável há meia dúzia de anos. Mas se rende, não há lei que o impeça. Não está já provado que a economia domina a política, Fernando? Se sim, porque razão não dominaria as religiões? Ou será vice-versa?
Em maré de grandes “revoluções”, apresentou-se recentemente outra grande questão dialética como diria alguém que eu conheço. Esta sim, nada tem de irónico mas vai bater naquela questão dos direitos individuais de que te falei há algumas semanas, a propósito da rapariga que exigia poder andar por onde lhe apetecesse passeada à trela pela namorado.
Agora é algo menos excêntrico e nada folclórico, mas de abordagem mais pesada para os conceitos morais da - arrisco afirmá-lo - generalidade da humanidade e da vastidão de culturas que a constituem. Há um caso de incesto na Austrália que está a virar a cabeça aos tribunais e a toda a gente. Um pai e uma filha estiveram vários anos sem se ver e, no reencontro, apaixonaram-se. Tiveram um filho que morreu, mas o segundo sobreviveu e aparenta boa saúde. Os tribunais impediram-nos de ter relações sexuais com o argumento de que uma nova gravidez poderá colocar em risco a vida da futura criança e eventualmente da mãe. E esta? Não é a nossa moral que choca com este comportamento? Está confirmado que quando parentes muito próximos, em qualquer espécie animal, a nossa incluída, acasala, o resultado pode ser infeliz porque a consanguinidade origina, muitas vezes, deficiências graves no feto. Certo. E então se os protagonistas da história, que me causa repulsa, assumo, se sujeitarem a qualquer tipo de tratamento que os impeça de ter filhos? Alguém tem alguma coisa a ver com o que dois adultos fazem dentro das paredes de uma casa que é sua, mesmo que sejam pai e filho e ajam de livre vontade? Outra vez a questão das liberdades individuais. Não me vou adiantar na questão, muito polémica, mas quero que, apesar de deliciado nos areais do Sal, mesmo sem ligação ao Mundo por internet, saibas os ventos que sopram nos outros cantos do mundo. Cá fico à espera de histórias de mariscos, barracas à beira-mar e peixes frescos caídos numa grelha.

Um informativo abraço.

António Martins Neves


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