Vivíssimo Fernando,
hoje apetece-me escrever-te uma carta sobre uma novidade daquelas que nos entram pelo dia-a-dia sem pedir licença e supostamente nos pretendem encher o coração de felicidade. Parece uma contradição, mas o que se segue é sobre a morte, o único destino que temos garantido. Mas fica sabendo, tu aí preocupado em desfrutar a vida o melhor que podes, que há quem se proponha facilitar-nos “as coisas” depois de morrermos.
Como? perguntas tu, incrédulo. A crédito, como quase tudo. Morremos hoje e depois pagamos o enterro em suaves prestações mensais. Verdade…
Saiu há dias um anúncio de página inteira num jornal daqui onde, em vez de investimentos para tesos, saldos de roupa ou viagens ao preço da uva mijona para “paraísos” de belas fotos e mais mosquitos que areia, tentam vender-nos o nosso enterro.
Sei que te vais achar antecipada esta perspectiva de estares a preocupar-te com o termo da vida, mas há sempre “empreendedores” que se encarregam de tornar óbvio o que jamais passaria pela cabeça de um vivo, muito menos de um morto. Isso mesmo!
Setecentos euros e não se fala mais no assunto. Inclui uma coroa de flores (naturais, atenção), “urna estofada” e, entre outras mordomias, “viaturas confortáveis” – que um morto apruma sempre a exigência e detesta fazer a última viagema sentir cada buraco da estrada. E tudo pode ser repartido ao longo de 18 meses sem um cêntimo de juros. Oh, Fernando! até na morte há quem se preocupe connosco. O progresso tem evoluído muito!
Só há um pormenor que destoa: será um “funeral popular”. Logo na altura em que todos nos tornamos distintos , honrados e insubstituíveis cidadãos, muitos descendentes de comendadores, quase todos com uma costela monárquica, aparece uma empresa a tornar-nos “populares”.
Mas olha, não se pode ter tudo. E por dois ordenados mínimos conseguir optar entre a sepultura e a cremação e ser manuseado por “pessoal profissional e uniformizado” não é coisa de pensar muitas vezes. Quem sabe se depois de fecharmos os olhos de vez vamos ter o que nunca imaginámos enquanto andámos de pé. Sim, porque no anúncio não diz, mas quando morrermos vamos deitados.
Não te preocupes nem te assustes com esta coisa da morte, que é a única experiência garantida – sim, sei que estou a repetir-me m, mas nunca é de mais relembrar – que conseguimos assegurar depois de nascer. E quem cá ficar que pague os 700 euros…
Um abraço cheio de vida.
António Martins Neves

