Enquanto há força…

http://www.portugal.montranet.com/portugal/monsaraz/1.jpgRealista Fernando,
é o progresso, ouvimos nós dizer à boca cheia de políticos e investidores. Aí como aqui, a imaginação dos eleitos, investidores e banqueiros não vai além desse chavão, que passa exclusivamente pelo turismo. Em resumo: conseguir o dinheiro daqueles que ainda o têm e tornar isso numa forma de vida, dando em troca um bilhete postal um metro de areia e um caldeirão de água salgada.
Não me apanhas desprevenido nem se trata de uma evidente postura a que esteja desatento. As características naturais tornaram-se um maná e quem tem dinheiro para investir e ganhar mais – uma postura legítima – considera que neste momento a natureza é onde mais se multiplicam os cifrões. Seja onde fôr. Quando se acabar, vai ser como os eucaliptos. Quem vai agora limpar os topos das árvores que produziram tanta riqueza para tão poucos e poluíram desmesuradamente para nós todos? Aqueles terrenos que antes davam ao menos pastagem e agora quase não dão ervas daninhas onde nem um pássaro de ouve? Quem vai começar esse longo processo de recuperação? As empresas de celulose? Nem penses…Os contratos foram bem salvaguardados, Fernando! O dinheiro fácil é que comanda a vida, o resto são uns seres excêntricos como nós que achamos que devemos deixar cá pelo menos o que encontrámos. Uma triste minoria que teme um dia querer ir a uma praia e não conseguir. Mesmo pagando impostos e avançando de peito aberto para qualquer grupo económico sediado numa “off shore” que ninguém sabe muito bem onde fica e muitos menos onde (não) paga o IRC. Mas o dinheiro é lei, só é pena que os decisores não reconheçam o que acham, lá no fundo, ser uma inevitabilidade…
É assim na ilha do Maio, na Aberta Nova, em qualquer lugar. Dizem eles, os políticos e os tais ditos “beneméritos” homens do dinheiro: o investimento é de não  sei quantas centenas de milhões e cria “n” centenas de postos de trabalho. Projecto de interesse público, logo! Os governos nem pestanejam. Claro que o interesse é dos promotores em ganharem quantidades industrias de dinheiro. As  pessoas, chapéu. Quem não puder – e cada vez são menos a poder – arreia. Qualidade? Nem na construção. Olha para o Algarve. Se queres beber um café com esse nome só terás garantias – com sorte – num hotel de cinco estrelas. O resto  são lotarias num país habituado à sorte do jogo…
Tudo o mais é igual em qualquer parte do mundo. Uma receita universal para agradar a turistas…todos parecidos, todos iguais. Estar de férias em Cabo Verde, em Portugal, em Timor-Leste ou nas Maldivas será diferente para aí na temperatura do ar e na água, que estará mais ou menos quente. Na sombra do lado podem estar os mesmos em qualquer um desses “lugares paradisíacos”, que comem e bebem o mesmo e nem se preocupam em olhar no mapa  onde fica aquele recanto do mundo, muito menos saber quem são as criaturas que tornaram aquele sítio habitável para eles.
Quando o turismo – que se tornou numa técnica desastrosa para os países que  aceitam colocar os ovos todos no mesmo cesto – vem com unhas afiadas para mim, costumo retorquir com aquele caso da bonita aldeia de Monsaraz, onde energúmenos  com dinheiro na algibeira que não imaginavam o piso que calcavam iam meter a cabeça pelas janelas das casas das pessoas…Umas portadas nas trombas deverão ter resolvido a questão algumas vezes e impedido reincidências. Mas os novos que chegam ameaçam repetir a monstruosidade. Temo que essa gente vá deixar  descendência e o mundo vá ser um sítio cada vez mais desinteressante para os nossos filhos. Olha, mas enquanto há força, como diz a canção, nós cá vamos lutando…

Um militante abraço.

António Martins Neves