Enamoramentos

Pândego Fernando,
gosto muito dos dias e perco-me pelas noites, mesmo quando são curtas. É bom sair quando o escuro já domina e ir por aqui sentir o viver, a pacatez animada, onde se passa o tempo da melhor forma que se pode, porque ele não falta, porque não é preciso correr atrás da vida, porque ela vem ter connosco. Gosto daquela meia-luz, em que se vê o que é importante e nada mais.
Chego-me ao balcão e cumprimento o patrão, cujo estatuto pouco tem a ver com a imagem. Há ali um desembaraço que se regista, e eu não tenho nada a ver com aqueles críticos de saídas e entradas nocturnas, bares abertos e fechados. Reparo na eficiência associada à simpatia e gosto. Sorvo o primeiro gole de café e reparo no casal ao meu lado. Ela de saia preta, saltos altos. Ele com uma carapinha enorme, erguida por um lenço que passa pela testa e tem as pontas atadas no pescoço. Bebem duas minis como se fosse Moet Chandon. Depois saem. Pela direita apresenta-se uma aniversariante a quem já homenagearam ali com os parabéns a você. Desabafa que está deprimida, que se fartou de chorar. Não gosta de sentir os anos passar, só que não diz quantos lá vão. Calculo que não chegou  aos 20.Vem buscar e pagar bebidas para os amigos. Recebe beijos e mais beijos. Um rapaz diz que só quer água das Pedras. Abstenho-me de ouvir mais. Olho em frente. Há dezenas, centenas de CD´s. Estão a tocar os Doors. Num retrato cimeiro Bob Marley fuma um enorme charro. A legenda foto diz algo como “Não fume, pela sua saúde”. Um mapa de Cuba, mais à direita, com ar de pergaminho, mostra a ilha onde Fidel Castro ainda reina encimada pela frase histórica “Hasta la victoria”. O mesmo Che Guevara aparece noutro registo a preto e branco famoso a puxar fumo de um puro com convicção. Num canto da foto famosa lê-se “Fumar mata lentamente”. Reina a ironia ali. Há um negro de tranças com cerrado sotaque, um cigano de mão dada com uma “branca”. O Alentejo é isto. E muito mais. Estou na minha casa.

Um atento abraço.

António Martins Neves