Elogio às botas
Publicado por António Martins Neves 24 Junho 2007 em Portugal.
Recordado Fernando,
hoje venho apelar à tua memória e tentar fazer-te recuar a uma viagem que realizámos, em grupo, já lá vão mais de dez anos, às geladas e elevadas terras transmontanas no pino do Inverno. Armei-me em herói, arrastei o grupo todo para uma tempestade medonha, atasquei o carro quando já havíamos perdido o Norte e o tempo alternava entre a chuva e a neve. Deves lembrar-te, seguramente. E também não te deve ter caído no esquecimento que no regresso à localidade mais próxima, a capital dos enchidos, Vinhais, fomos confrontados com um único local para pernoitar. Chamava-se Pensão Riberinha.
A recepcionista era uma senhora simpática, ainda nova, que sim senhor, tinha os quartos que pretendíamos, jantámos e lá fomos em busca do calor para contrabalançar o frio gelado da rua. Subia-se a escada até ao primeiro andar e aí começavam as surpresas. Um corredor e quartos de um lado e de outro. A meio a casa de banho, colectiva, claro está, daquelas à vez, quem primeiro chega primeiro se avia. No início do corredor um original e insólito letreiro: “Pede-se aos senhores trabalhadores que deixem as respectivas botas à porta do quarto”. E lá estavam elas, em cima dos tapetes à porta de cada quarto. Dos odores não guardei memória. Da imagem sim. Aquelas botifarras de trabalho ali todas alinhadas, aos pares, a resfolgarem de pés exigentes, quase de certeza calejados. Houve mais uns pormenores que contribuíram para tornar a noite inesquecível, como o colchão da cama. Era de lã, uma raridade, e alto como a serra de Montezinho, o candeeiro de cabeceira acendia de cada vez que se dava a volta na cama…mas lá se passou a noite protegido da tempestade e com a convicção de se estar instalado no melhor alojamento que a vila tinha para oferecer aos poucos forasteiros que a procuravam.
Diferente, e o que mais retive, foi aquela imposição de um homem ter que dormir com as botas do lado de fora da porta, como um soldado que deixa a arma à porta da camarata por causa do cheiro a pólvora em vez de a limpar e olear. Nunca percebi bem porquê, mas a única razão que encontrei para tal atitude foi o odor habitual a quem trabalha e sua muito, incluindo nos pés. Quero poupar-te a dissertações do género e a estímulos olfactivos menos agradáveis, mas nunca percebi por que carga de água a fórmula encontrada pela gerência era todos terem que gramar o cheiro de cada um quando passavam no corredor e não cada qual com o seu tormento a noite inteira. Seria dissuasor e levaria a mais higiene e limpeza para combater os fungos que atazanavam a cabeça aos inocentes hóspedes que como nós caíamos ali, porque nada mais nos esperava.
Isto seria um episódio entre muitos, não se desse o caso de ter descoberto, há algum tempo uma situação idêntica. Outro par de botas à porta. Só que desta vez, Fernando, não foi em nenhuma pensão, mas num prédio de habitação. Não foi no Norte, mas no Sul.
Habituado a ver vasos de flores, carrinhos de bebé ou bicicletas nas entradas dos prédios, fui confrontado com as ditas botas à porta de um apartamento, no rés-do-chão. E já as vi lá mais que uma vez. Dizem-me que sempre pernoitam ali, fora do lar. São um par simples, que revela andar nos pés de quem trabalha no duro. Mas ali ficam, desprezadas e expostas ao olhar de quem entra no prédio.
Não envergonham ninguém, é um facto, qualquer vela de sebo holandês as torna imunes a águas indesejadas e dá-lhe um ar composto e luzidio. Devem comprar-se em qualquer mercado mensal ao ar livre por dez euros ou coisa que lhe valha. Umas botas para trabalhar, seguramente. Mas isso é que dá um toque de infelicidade ao cenário, Fernando. Dei comigo a pensar porque razão quem protege uns pés dias e dias, andam por onde as levam, suportam sabe-se lá que pesos, protegem pés de jeitos e trejeitos incontáveis e depois….ficam para ali desprezadas, quase na rua, votadas ao esquecimento noites inteiras, ostracizadas, vítimas do egoísmo de quem só as usas quando se quer proteger das agruras do chão e dos elementos. Será exagero meu? Acho, que não, caro amigo. Umas botas protegem-nos de muita coisa e merecem, por isso, descansar condignamente. Por fraco que seja o cabedal, dizem os especialistas, reconhece e recupera com o descanso e o arejamento. Se calhar são também vítimas dos odores que acumulam dos pés que são obrigadas a engolir. Só que em troca recebem…desprezo. Mas, concordarás comigo, um homem ou uma mulher também se distinguem pela forma como cuidam o que trazem nos pés: diz-me como tratas as tuas botas, dir-te-ei quem és! Garanto-te eu, que aprendi a nutrir admiração pelo que nos permite andar pela vida. Com as botas do teu pai, pareces um homem, recordo-me eu de ouvir não sei desde quando.
Um abraço calçado.
António Martins Neves



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