E se um cidadão lhe oferecer uma árvore, presidente?
1 comentário Publicado por António Martins Neves 1 Abril 2007 em Portugal.Empoeirado Fernando,
a primeira coisa que me ocorreu quando me anunciaste esse quase horror das pessoas daí às árvores, no caso concreto às acácias, foi o jeito que essa aversão dava aqui. Regiões de grande importância e beleza natural como o Parque do Gerês correm o risco de ser engolidas por uma árvore dessa família, bem diferente seguramente, mas que cresce e alastra a uma velocidade vertiginosa, ocupando o espaço das outras espécies vegetais, ao ponto de as impedir de sobreviver.
Quase um drama, digo-te eu. E difícil de combater.
Mas esta seria uma leitura aligeirada do que falas na tua última carta. O que e parece estar em causa verdadeiramente é a dificuldade de relacionamento que temos com a Natureza. Por desconhecimento, ignorância, muitas vezes fazemos disparates cujas consequências não nos ocorrem.
Esse de cortar as acácias aí com o argumento de que elas “roubam” a água às pessoas é só mais um. Uma justificação fácil de transformar também em pó: se houvesse muito mais árvores aí, choveria muito mais e a falta de água não seria esse drama conhecido. Que a generalidade do povo não saiba isso, é aceitável, embora pouco compreensível que nunca tenham sido elucidados de tal. Inadmissível é, como dizes, que o Município da capital de um país decida com base na mesma lógica, aparentando uma ignorância inaceitável e “promova” uma desertificação que devia combater com todas as forças. As consequências estão à vista e a menor delas será seguramente a “raiva” que te ataca quando te debates com a areia que te entra pela casa dentro e se prospega nos sítios mais impróprios, que não hão-de ser só os livros mas que eu me abstenho de citar.
Essa “alergia” às árvores recordou-me um capítulo de um livro que o polaco Ryszard Kapuscinski – esse repórter maior recentemente falecido – escreveu sobre África, que conheceu de lés-a-lés como poucos, e que se chama “Ébano”.
Precisamente nas últimas páginas, ele, uma referência mundial do jornalismo que sabia ver e ouvir como poucos de nós, recorda a importância da árvore na cultura africana e também no dia-a-dia das pessoas desse continente, particularmente das que vivem em países desérticos como Cabo Verde.
Mostra-se ele impressionado com a capacidade desses seres vivos para conseguirem crescer em locais quase impensáveis e a utilidade que os humanos conseguem tirar disso, ao contrário do que sucede aí na Cidade da Praia.
Cita o que viu do outro lado do continente africano, numa região chamada Wolega, na Etiópia, onde as mangueiras são as melhores aliadas das pessoas. É à sua sombra que atenuam os efeitos dos calores abrasadores, é debaixo da sua copa que a professora, quando existe, ensina os alunos, pendurando cartões e papéis nos ramos porque não há quadro, é com um galho que aponta e é também ali, debaixo da árvore que dá as mangas, que se encontram, para conversar e conviver, as pessoas da aldeia que há quase sempre por perto de cada mangueira, grande e majestosa no meio de quase nada.
Com casas de barro apertadas, a sombra da árvore é uma boa alternativa para os aldeões se encontrarem, para os anciãos se reunirem em conselho, recordar o passado, preparar o futuro, decidir. Ao fim do dia chegam as mulheres e as crianças ao “largo” que simboliza a mangueira. As primeiras, se tiverem com quê e se houver lenha, fazem chá e conversam, enquanto os filhos brincam em redor da árvore. Que, além de abrigar os pássaros, também dá guarida aos espíritos, conta Kapuscinski. É assim uma espécie de centro do mundo, acrescento eu.
Dir-me-ás que isso é em África que acontece, porque as pessoas aí não se consideram africanas. Mas, nos aspectos essenciais, todos os seres humanos têm muito em comum. E uma das muitas semelhanças que carregamos é a dependência das árvores para viver. Não só para evitar que às nossas portas se formem irritantes dunas que nos atanazam diariamente com areia por todos os poros. Mas porque produzem o oxigénio que não podemos dispensar para viver. Nós e os outros animais que ainda por cá vão andando e resistindo, incluindo esse cães raivosos que às vezes tens por vizinhos. Se tivessem uma árvore, se calhar preferiam a sua sombra…
Olha, e vai espalhando por aí que quando desaparecerem as árvores do mundo não vai estar cá ninguém para contar porque a raça humana terá há muito sucumbido. Pode ser que a ideia entre pela Câmara como a areia pela tua casa e se infiltre na mente dos autarcas.
Se fosse eu a ti, quando o presidente do Município fizesse anos, oferecia-lhe uma das que sobrevivem aí, que crescesse e ficasse assim grande e bonita um dia, daquelas que nós paramos para observar. E colava-lhe um bilhete a dizer: “Você precisa mais de mim do que eu de si. Só preciso que me plante e me regue de vez em quando. Em troca purifico-lhe o ar que respira. Aceita o negócio?”
Um verde abraço.
António Martins Neves


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