Versátil Fernando,
bela jogada essa de ir reportar as façanhas do Benfica aí por Cabo Verde. Como se diz aqui, é disso que o meu povo gosta. Então, os jornalistas têm que lhe dar. Neste caso, estamos perante uma questão pacífica. Os futebolistas quase em férias e os adeptos quase em extase. Divertimento puro para todos. Que foi bom enquanto durou. Estou a imaginar uma enorme confusão, algazarra, autógrafos para cá, gritos e abraços para lá. Dois, três dias, aceitável. O pior é o que vai acontecer por aqui. O início oficial da loucura aconteceu hoje e vai durar enquanto a selecção portuguesa se mantiver no Euro 2008 de futebol, que se prolonga entre 07 e 29 de Junho.
Não sou de paixões futebolísticas. Tenho uma simpatia muito ligeira pelo Sporting e acho justo quando perde porque joga mal, como aconteceu vezes de mais esta época. Vibro mais com a selecção, mas também sou exigente. Aquele grupo de trabalho, como diz quem está lá dentro, esforça-se pouco para o que ganha e entrou numa onda calculista que não entendo. A máxima do selecionador Luiz Felipe Scolari é vencer. Joguem bem ou mal. Claro que isto tira o encanto todo ao futebol. A magia, como dizem. Gostaria que ganhassem com brio. Que dessem espectáculo e mostrassem ser realmente melhores que os adversários. Mas isso sou eu, remetido ao papel de mero espectador quando calha.
Outra coisa bem diferente é a máquina que hoje começou a andar. O grande negócio. Patrocinado pela petrolífera nacional, a campanha do Euro vai ser a única questão que interessa ao país nas próximas semanas. E não lhe faltará o gás. Parece que o futuro do país está ali nas mãos daquele grupo de pessoas. E não são só interesses comerciais, isso te garanto. Hoje acordei com a estação pública de rádio Antena 1, paga pelo dinheiro dos contribuintes e (ainda bem!) sem publicidade, a fazer a emissão em directo de Viseu. Porquê? Simplesmente porque foi naquela cidade que a selecção começou esta segunda-feira o estágio de preparação para o campeonato europeu. O que aconteceu lá do ponto de vista noticioso para justificar o investimento? Nada. Já se sabia há muitos meses que seria lá e nesta data que iria decorrer a concentração dos 23 jogadores convocados. Se nada correr fora do previsto, não há notícia. Digo eu. Se não há, fala-se sobre tudo e mais as botas e enche-se noticiários, telejornais e páginas e páginas de jornal. Parece que é disto que o meu povo gosta, lá dizia o carismático relator (de futebol) Jorge Perestrelo. E como já vi preencher meia-hora de um jornal televisivo com a “antecipação” de um jogo sem uma única novidade, já acredito em quase tudo.
A febre está a ser elevada a um nível em que até já foi criada a figura de sócio da selecção nacional, algo que eu pensava ser condição inerente a todos nós, até porque se trata de um investimento público. Que não, é preciso ter um cartão, mesmo gratuito. Já não bastam as bandeiras nas janelas, nos carros e onde a imaginação as plantar. A criatividade dos publicitários até levou a que o exterior do autocarro onde os jogadores se deslocam fosse rabiscado por quem a ele tiver acesso, com assinaturas e recomendações. Para terminar, e não te saturar com a “bola”, a ti que estás mais distante esta realidade, deixa-me só dizer-te que o principal patrocinador de tudo isto é a empresa que tem o monopólio da refinação de petróleo em Portugal e maior quota de mercado de venda de combustíveis. Que desde 31 de Janeiro (em três meses e meio) aumentou 18 vezes os carburantes de que o país depende para se mover. Ah, e que o Estado tem o estatuto de “golden share” na empresa que lhe dá um estatuto especial e a inerente capacidade de influenciar as decisões de gestão. Estamos conversados, portanto.
Não alimento grandes expectativas sobre o que vai fazer a selecção no torneio organizado pela Áustria e Suiça. Não aposto um euro, até porque não sou de arriscar em algo tão imprevisível. Mas é claro quem já ganhou muito antes do campeonato começar.
Um atento abraço.
António Martins Neves

