Dunas, cães e outros disparates
fechado Publicado por António Martins Neves 5 Abril 2007 em Portugal.Sensato Fernando,
estava a ler hoje um jornal quando uma fotografia me fez lembrar essa malfadada duna que tens aí à porta. É uma vista aérea de uma zona quase paradisíaca do Algarve onde querem construir mais um aldeamento de luxo. Provavelmente com dunas e cães raivosos alguns anos depois. Sim, porque a natureza não brinca nem gosta de excentricidades destas. Basta ver o mar avançar pela terra e os (ir)responsáveis a correrem a pedir dinheiro para colmatar o mal que fizeram sem dar cavaco a ninguém, tantas vezes na mais despudorada ilegalidade.
Dito de outra forma, como agora se usa: o nosso futuro passa pelo relacionamento com o meio natural onde vivemos. Se o respeitarmos, preservarmos, vai sobreviver e manter-se para os nossos filhos. Se optarmos por explorar o que de bom a natureza nos dá com a ganância que nos tem caracterizado, a herança que deixaremos será desgraçada e trará o fim da raça humana ( e das outras todas).
Fernando, aí tens a duna mais os cães. Aqui temos o mar a avançar e levar bares e outras estruturas em cima de dunas onde nunca deviam ter existido mais do que aquelas corajosas e abençoadas plantas que fixam a areia. O preço de estar numa esplanada quase com os pés dentro de água é demasiado caro e ninguém quer pagar sózinho. Vê-se agora. Ai que o mar entrou no parque de campismo, ai que são precisos milhões e milhões. Mas quem tomou a responsabilidade de deixar que tais edificações fossem erguidas? Ninguém sabe, ninguém dá a cara, Fernando. Só que o Estado (nós, os que pagamos impostos) tem que pagar.
É o folclore das televisões e o mar a entrar pela terra a dentro. As pessoas a gritarem, o espectáculo mediático, as máquinas dentro de água, o “show” a escorrer ali ao ritmo das marés.
Mas não se aprende nem com os erros. Parece sempre que há uma força mais forte que anula princípios, estudos, convicções…Será só o dinheiro, Fernando? Aí é a água que leva os responsáveis a cortar as acácias. Aqui é mesmo o lucro que leva a arrasar o mais belo e rico com que a natureza nos brindou. A mesma tristeza…
Volto à foto. Muitos pinheiros, algumas casas, uma zona pantanosa e o mar ao fundo. Guarde-se na memória. Será um aldeamento de luxo, exclusivo, para quem tiver muito dinheiro. A vegetação irá diminuir mais de metade, a água vai arrastar a areia, o mar vai avançar pela terra e daqui por uns anos lá vêm mais uns senhores dizer que vivem à beira de uma arriba em risco de cair, na eminência de acordarem com água pelos pés…Mas isso é depois, agora é luxo e fineza ter casa onde a natureza devia reinar. E nós integrados nela, ajudando-a a suportar as maleitas que lhe provocamos, atenuando-lhe o sofrimento.
Muita gente deve achar que a tua duna é uma benção. Areia à porta de casa, quem dera que o mar viesse e molhasse os pés e o resto e se tirassem muitas fotografias e…depois fugissem todos quando a água chegasse a sério e o oceano impusesse as suas regras.
Devo parecer-te filosófico hoje, Fernando. Mas, e insisto como já o disse várias vezes nesta nossa correspondência, acho que nós, os humanos, esquecemos o que os nossos antepassados nos ensinaram sobre o lidar com a natureza.
E vamos ter que pagar o preço por isso. Bem caro. Não a respeitámos e ela não nos respeita a nós. Lógico. Não farias o mesmo? Eu faço. Eu ainda moro aqui num andar onde água chegará quando eu for pó há séculos. Mas tu aí, Fernando,põe-te a pau que essa duna deve estar mortinha por se arrumar à casa e torná-la nalgum vestígio arqueológico. Olha-me por ti, homem. E deixa os cães aninharem-se nessa areia. Alguém que usufrua, mesmo que desgraçadamente…
Um abraço natural.
António Martins Neves

