Doze fora nada

Decansado Fernando,

os tempos por aqui não vão muito de exaltar os sentidos, como os cheiros que sugeres. Mais os sentimentos. E nem ao fim-de-semana uma criatura se livra do que vai aqui nesta praça de hortaliça estragada. Directo ao assunto, acho que será útil conheceres o que se passa com as eleições antecipadas na cidade onde tens a tua casa. Temos uma câmara falida, uma dívida descomunal, uma capital paralisada e, senta-te para não caíres, 12 benevolentes cidadãos que se vão esfolar para ficar com a “menina” nos braços. Costuma-se dizer que quando a esmola é grande, o pobre desconfia. Mas se o que há para fazer em Lisboa nos próximos anos é equilibrar as contas, excluída que está a desejável descoberta de uma mina de ouro, então porque são tantos a querer gerir uma casa só para pagar dívidas?
Da extrema-direita à extrema-esquerda, a dificuldade é escolher, Fernando. E o PS, partido que domina o país com um governo sustentado numa maioria absoluta no Parlamento, apostou o que podia e atirou mesmo o seu “número dois”, o “ministro da segurança”,  António Costa, para se encarregar da tarefa de conquistar o Município ao PSD. Depois surgiram candidatos como cogumelos no montado quando chove no Outono: em todo o lado. Mas também aqui, como na recolha dos ditos fungos,a  dificuldade é distinguir os comestíveis do venenosos. Numa consulta rápida, constata-se que só em 1979 o Município de Lisboa teve mais candidatos numas eleições do que nestas intercalares, provocadas pela queda do elenco liderado por Carmona Rodrigues (independente eleito pelo PSD).
A piada (permitida, mas frouxa) durante uns dias foi perguntar a quem se encontrava na rua se já tinha anunciado a candidatura. Entre quem se apresenta pelos partidos e os que se dizem independentes, o resultado promete ser uma confusão enorme e uma gestão ainda mais difícil do que a que estava e que não deixou nada de positivo para a história de Lisboa.
A grande vantagem: fartura para escolher. Ninguém pode dizer que não se revê em nenhum dos candidatos anunciados. A desculpa há-de ser mesmo a praia, porque as eleições irão cair no meio de Julho e essa coisa de ir votar por aqui motiva apenas um em cada dois de nós. Com a perspectiva de uns mergulhos em troca da cruz no papel, estás a ver o que aí vem…Obervado assim friamente, os eleitores de Lisboa têm os autarcas que merecem. O caos continua instalado no trânsito, cada vez menos gente mora no centro da cidade, o orçamento esvai-se como que por magia e…chega de te apoquentar, a ti que nem terás que votar, que tens praia por perto e não tens problemas de trânsito nem resides na periferia. A não ser que queiras ser o 13º. Se um dia acordares com esse desejo, não te inibas! Conta com a minha assinatura, Fernando.

Um abraço descrente (politicamente, claro)

António Martins Neves


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