Folgado Fernando,

por estares fora da tua residência habitual num merecido descanso de férias, presumo que lerás esta carta mais tarde. De qualquer modo, este hábito instalado de trocarmos ideias e histórias que nos agitam a mente e nos enriquecem o espírito impulsiona-me para volta e meia estar à roda com as palavras para as arrumar em mais uma carta. Hoje confesso que o que mais me estimulou foi uma contradição: o esforço que está em marcha por parte de algumas pessoas de vários países para que a sesta passe a ter estatuto “legal”. E poderia lá haver assunto mais a propósito do que um pequeno sono após o almoço nestes dias de calor tórrido que têm colocado Portugal a suar em bica?Imagina tu que o assunto já chegou à Hungria, e em força. Afogueados com calorões invulgares, os húngaros falam em referendar a institucionalização da sesta.  É o que se chama atalhar e direito e não perder tempo. O inverso do que acontece cá, país do Sul da Europa, bem mais quente, mas onde o assunto não levou a mais do que a criação de uma associação, já lá vão uns anos, mas que tem apenas escassos 220 membros.
Lá, pelas terras atravessadas pelo Danúbio, o assunto é capaz de ser resolvido de mangas arregaçadas e não me admira que seja mesmo decidido nas urnas. Certamente, nos dias curtos de Inverno, para não fechar as mesas de voto à hora da sesta.
Por cá, não é um sonho sequer que a figura do referendo seja usada para definir se queremos ou não dar carácter formal àquele fechar de olhos retemperador, como lhes chamam os muitos especialistas médicos que reconhecem os méritos do pequeno sono ao princípio da tarde. Vai continuar-se a falar e pronto. Também a adesão seria a que imaginas: se quase metade das pessoas não vota nas eleições regulares, nalguns casos é mesmo a maioria a virar as costas a esse dever para decidir quem preside à República, quem lidera o Governo ou a câmara municipal, o que seria de esperar se estivesse em causa a sesta? Ficariam a dormir, calmamente.
Aqui te deixo esta ideia, para ires temperando depois das belas sestas que imagino não dispensares. Quanto ao referendo, parece-me que o melhor mesmo é dormirmos sobre o assunto.

Um abraço e belas sestas.

António Martins Neves


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