Democracia pura e dura

Indignado Fernando,

hoje apetece-me surpreender-te. Sabes que há outra “república” aqui, sem ser a Portuguesa nem as dos estudantes de Coimbra? Com um presidente e tudo, eleito pelo povo? É verdade, Fernando. Uma bela  democracia em que participam os 400 habitantes de uma pequena localidade do concelho de Castro Verde, no Alentejo.
“República dos Aivados”. É assim que é denominada aquela experiência única que um dia conheci e fiz uma reportagem publicada na revista “Grande Reportagem”, quando era dirigida pelo Miguel Sousa Tavares.
Vê-se da auto-estrada que vai para o Algarve, antes de Ourique, mas os apressados turistas, absorvidos pela pressa em chegar perto das águas ditas cálidas nem sonham que aquela aldeia, na aparência igual às outras, é um democracia dentro de outra. Ou melhor: talvez seja um bom exemplo onde os nossos governantes ganhariam em ir beber inspiração.
Tem uma espécie de governo, cujo líder é o “presidente da república”, a assembleia geral e o conselho fiscal, como ditam as regras das associações, que é o estatuto daquela situação invulgar.
Quando lá estive, o “presidente” era um sargento, imagina. Lá no quartel, em Beja, uma patente baixa, ali na aldeia, um autêntico marechal, pode-se ironizar. Mas mesmo só a brincar, porque liderar a “república dos Aivados” não é tarefa fácil. Há uma enorme propriedade agrícola para gerir, um belo rebanho de ovelhas, opções a tomar, pedidos a satisfazer, necessidades a atender, projectos a desenvolver. “Uma grande trabalheira”, dirás tu. E eu concordo. Por isso, queixava-se então o “presidente” que já quisera passar a “pasta”, mas não apareciam candidatos e as eleições lá decorriam com um único “partido” . Como a “república” não pode morrer, lá se sacrificava o sargento, homem meritório em vias de ser entronizado e ver o regime dos Aivados transformado nalguma monarquia.
Como podes ver, tudo como se passa na República sediada aqui em Lisboa. Um líder empenhado, ocupado, incapaz de abandonar o barco enquanto não houver quem o substitua no leme, sem ordenado -  sim, Fernando, o cargo de “presidente da república dos Aivados” não é remunerado” – e sempre pronto a discutir no “parlamento” as decisões e a acatá-las segundo a vontade da maioria. Parecido, não é? Sim, mas tem umas diferenças que tornam a situação aparentemente melhor gerida do que a pátria inteira.
Mas como é que isto tudo começou? Não está escrito em lado nenhum, mas a tradição oral conta que uma senhora latifundiária, com umas centenas de hectares de estepe alentejana, onde incluía o então monte dos Aivados, nunca casou nem teve descendência. Num gesto a que eu colaria um cartaz a dizer “avançado para a época”, a mulher decidiu em testamento deixar todos os bens às pessoas que viviam no povoado, formado em redor do monte, onde habitavam assalariados e camponeses da herdade. Colocou-lhes uma condição: gerirem os bens que lhes deixava e nunca os venderem. E assim foi, desde há algumas centenas de anos.
Descendentes dessa mulher chegaram, no século passado, a querer pôr em causa o testamento, dizendo ser eles os legítimos herdeiros das terras e bens dos Aivados. O diferendo foi parar aos tribunais, o povo da “república” consegui sempre ver-lhe reconhecida razão nos diferentes patamares da Justiça, até que o Supremo Tribunal pôs termo às dúvidas e deu-lhe definitivamente razão.
E lá estão.  A aldeia tem uma sala colectiva que tanto serve de assembleia popular, como de palco para comícios partidários, bailes ou até mesmo velórios. A única condição imposta a quem solicita o espaço, e o usa gratuitamente, é que deixe aquela casa do povo tal como a encontrou: limpa e arrumada.
O rendimento de terras e gado é distribuído da forma mais votada, sendo um dos apoios prestados a comparticipação dos livros dos estudantes da aldeia. Ah, e os funerais são de borla. Levam o caixão – esse pago -  num carrinho empurrado pelos que cá ficam. Estavam também a oferecer lotes de terreno a casais novos que quisessem passar a integrar a  “república” e construir lá casa.
Aqui te deixo, Fernando, um bom exemplo de democracia. Deverás interrogar-te, como eu, sobre o que terá permitido o equilíbrio e o bom senso para manter um projecto assim de pé, com cada cabeça sua sentença, e sem políticos profissionais. A mim, ocorre-me só uma aparente justificação: na altura em que lá estive, há mais de dez anos, nenhum dos habitantes era rico e todos viviam do seu salário.

Abraços democráticos,

António Martins Neves