Deixa arder!

Espantado Fernando,
o meu silêncio tem uma justificação muito simples: não foi nenhuma âncora que arrancou o cabo que leva e trás esta correspondência, também não faltou a luz por carência de combustível para geradores que não existem, mas tudo se resumiu a confiar nas novas tecnologias que depois falham assim como as notas falsas. Quando estamos a contar com elas afundam-nos, arrasam-nos a reputação, empurram-nos para a cadeia… um chorrilho de desgraças. Descansa que não me aconteceu tudo isto, mas quase podia.
Uma placa modernaça para aceder à internet, eu plantado junto ao principal eixo viário do país, onde passam milhares de ditos veraneantes mortinhos por chegar ao Algarve, quer-se mandar uma mensagem através da dita artimanha anunciada com pompa e circunstância e nada…Várias razões levam-me a não levantar uma sobrancelha sequer! E claro, estou de férias. Espero que tenha ficado claro o meu silêncio.
Indo ao que interessa: tem sido descanso e pouco mais. Apenas alguns episódios, um dos quais gostava de te relatar.
Na viagem da “fuga” para o retiro actual, estrada nacional fora, dou por mim atrás de um carro preto, já com uns anos valentes, conduzido por jovem fumador. Alentejo, 30 graus, o rapaz segue aí a uns 50 quilómetros/hora, braço fora da viatura, a desfrutar a brasa, cigarrada ao vento. Não sou de grandes jogadas, mas houve um sentido qualquer que me levou a dizer alto: aposto que aquela ponta de cigarro vai ser disparada com o dedo pai-de-todos, como quem joga ao berlinde, em direcção à natureza. No osso. A criatura repuxa a derradeira fumaça e pimba! Lá vai a beata a alguns 600 graus de temperatura a rolar numa vertigem pelo asfalto…Deixo de ver, fico branco, azul, amarelo. Acelero, encosto o carro ao dele e desenferrujo a buzina, que não era usada há muitos meses. Sobressalta-se, faz algo parecido com um pedido de desculpas enquanto olha pelo retrovisor. Gesticulo, repito o gesto de atirar o cigarro pela janela e encolho os ombros a interrogá-lo. Fico com ideia que ele estava a pedir desculpa por ir devagar. Quando percebe que o que me preocupa é o seu gesto assassino de atirar fora um cigarro a arder em Julho, fica a ferver como o raio da beata. Esbraceja, insulta, revela-se um especialista na mímica de escarnecer e ameaçar. Virou logo na próxima saída à esquerda. Lá foi, fazendo corar a minha ascendência.
Poucos dias depois, a menos de quinhentos metros deste cenário, vários pinheiros mansos com parte da copa inferior queimada, o chão negro do pasto devorado pelo fogo. Aposto outra vez simples contra dobrado: outro cigarro, se calhar foi o responsável anterior que me mandou para onde nunca fui. Ou outro parecido. Dá-me que pensar, choca-me, quase me aterroriza. Como é possível que andemos há tantos anos a ver o país a arder, a assistir a dezenas de campanhas de prevenção de incêndios e depois um automobilista num concelho florestal como é Alcácer do Sal tenha aquela gesto inqualificável, da maior irresponsabilidade que se possa acumular? O que será que torna as pessoas insensíveis à própria dor? Aquele esticar de braço podia ter destruído, dezenas, centenas de hectares, milhares de árvores, arrasado a vida de muita gente, destruído um património natural invejável. Disse-lho por gestos, fui insultado. Assim vai a nossa terra.
Para me aliviar, tive que ir dar uns mergulhos. A “minha” praia mantém-se majestosa como sempre e este ano até ganhou uma biblioteca. Segue foto junta e a convicção de que aquela cavalgadura, se eu puder, nunca colocará os cascos em tal areal. Ali não atearia fogo mas conspurcaria aquele prazer longo para o olhar, cor e tudo o que imagines. Seria incapaz de ver os cinzeiros que estão à mão de quem passe com a recomendação de devolução no regresso da praia. Reconforta-me a ideia de que as crianças das escolas que fizeram aqueles cinzeiros nunca na vida irão atirar uma ponta de cigarro pela janela fora. Vou a banhos.

Um refrescante abraço.

António Martins Neves


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