De mão dada com outro? Vou já contar!
fechado Publicado por António Martins Neves 16 Março 2007 em Portugal.Fernando,
A vida aqui pela Europa não é o que se pinta aí pelos trópicos. Há menos Zézinhos, não vão certamente tocar à mesma porta todos os dias, não conhecem o locatário pelo nome e muito menos atravessam a rua para o cumprimentar. Por cá é tudo mais frio, menos pessoal. As pessoas são menos gente. Disso não tenho dúvidas. Falo das cidades, para onde já fugiu a esmagadora maioria de nós.
Dirás tu que são os tempos, a evolução natural…talvez!
Mas há vários factores que não me alegram e que me ocorrem agora falar. Saiu hoje numa revista daqui, a “Sábado”, um estudo que compara os portugueses com a média dos europeus. E tem um dado que não pode animar ninguém: quatro em cada dez europeus admite esconder dados ao fisco. Em linguagem corrente isso quer dizer que se puder, foge aos impostos. A média europeia atinge os 39 por cento, Portugal 41 por cento. Quase metade, números redondos. Traduzindo: na prática, aqui na Europa, recusamos aquilo que é invejado aí, que são os estados fortes. País onde não se paga os impostos devidos é um país pelintra. Onde todos vivem à custa dos que não conseguem evitar fugir à colecta quando querem ter médico gratuito, estudar sem pagar propinas, deslocar-se nos transportes públicos, viajar numa estrada decente e sem buracos.
Costumam dizer os analistas económicos que se todos aqui pagassem os impostos que devem seríamos um país desses com que se sonha aí em Cabo Verde. Assim, não. Vivemos com a corda ao pescoço e sem esperança nenhuma de mudar.
Vai haver alterações, quero eu querer, que sou um optimista, mas levará muito tempo. Como usa dizer-se, talvez no tempo dos nossos filhos eles entendam o que é verdadeiramente viver em sociedade, pensar no grupo e não olhar só para o espelho.
Não é um retrato bonito este, o da tua terra que deixaste para te aconchegares com mornas, coladeiras e outras belas formas de levar a vida com pouca riqueza mas muita alegria.
Mas deixei o pior para o fim. Não mete dinheiro, carros, casas, cruzeiros nas Caraíbas, euromilhões, nada disso. O que mais me indignou no que distingue os portugueses da média europeia é a facilidade com que admitem meter a foice na seara íntima dos que estão próximos.
Somos até bem solícitos a devolver o troco se a caixa do supermercado se enganou (66% na Europa, 77% cá), muito menos incapazes de passar à frente nas filas (32% – 21%) e até bastante mais relutantes em viajar num comboio sem bilhete que os nossos comparsas da União Europeia – 53% contra 21%.
Agora, senta-te se estás a ler esta minha carta de pé, o que nos impele como nenhum outro povo deste continente é meter o nariz na vida alheia. E mais: escarafunchar, denunciar, intrigar, enfim…
Metade de nós, diz o estudo publicado na revista, “era capaz” de dizer a um amigo ou amiga que viu o seu companheiro ou companheira de mão dada com outro na rua. No resto da União Europeia também não são frescos quando toca a preocuparem-se com a intimidade dos outros – 37 por cento assumem poder fazê-lo.
Só que nós somos metade preocupados com esse gesto feliz de ver duas pessoas de mão dada!!! Só porque alguém não apadrinhou a nossa vontade??? Fiquei preocupado, Fernando. Espero que por aí as pessoas olhem mais para si e menos para outros. E andem muito de mão dada.
Ganda abraço
António Martins Neves


