foi no momento em que levantei os olhos do artigo sobre a responsabilidade dos pais na educação dos filhos que vi o gesto fatal.
Tirou o último cigarro, amachucou o maço e pimba! atirou-o para a calçada da rua, junto ao passeio, no intervalo entre dois carros estacionados. Estudos e sondagens sobre civilidade pouco podem contra a dura realidade revelada nos pequenos gestos. Dizem-nos que já somos assim e assado, mas atiramos lixo para o chão com a naturalidade de quem respira. A teoria e a prática, a ficção e o real, o que parece e o que é, o que lemos e o que vemos, o que nos garantem e o que sentimos.
Sinto que este estado de espírito se acentuou nos últimos tempos por aqui, na tua terra. Umas pessoas andaram a dizer-nos que tínhamos futuro e agora, com o mesmo desplante, vêm apresentar-nos uma conta que desconhecíamos. Alguém garantiu que ia usar bem o nosso livro de cheques, que podíamos estar descansados, e agora descobre-se que gastaram muito mais do que tínhamos na conta e vamos ter que pagar. Acreditámos, agimos de boa fé, mas fomos vigarizados, atraiçoados. Queixa na polícia! Qual polícia? Não há. Crime sem castigo, nada a fazer, a não ser o que nos mandam. Dizem. Sejam responsáveis, exigem-nos os mesmos que não o foram, que nos deixaram a conta negativa porque juraram usar bem o quase nada que tínhamos. E não acontece nada. Não lhes acontece nada. Descobrimos que não há multa para tal infracção. Nem se fala disso. Esqueçam. Tudo o que importa é saber como vamos repor o que era nosso e gastaram sem nos avisar. Escondendo. É o vale tudo. A mentira banalizou-se, tornou-se normal, é aceite. Foi oficializada, decretada. Prepara-te para, quando voltares, veres ainda mais gente a atirar lixo para a rua.
Um verdadeiro abraço.
António Martins Neves


