Fernando,

a Marisa Serafim mandou-nos esta carta da Guiné-Bissau. Aqui a deixo. Vais gostar.

Caros Fernando e António,

ainda bem que só faltam uns dias para me ir embora. Sim, ainda bem.
Mas sinceramente, digam-me lá o que há de bom para viver num país onde não há luz eléctrica, água canalizada, iogurtes, bolas de Berlim e pastéis de nata. Digam-me, por favor, se é bom viver num país onde há três semanas só existem coxas de galinha. Mas onde raio está o resto do corpo do animal? Nem o peitito, nem a asita, nada… só as coxas.
E assim tem sido… cada vez que decido comer frango já sei que me vão apresentar a coxa assada ou estufada. E os ovos? Os ovos desapareceram. É impossível arranjar um ovo. E o melhor é que não há explicação para a falta de ovos. Será que deixaram de existir galinhas? Já nem vou dissertar sobre o porco. Em quase lado nenhum se come e eu a vê-los passar gordos, anafados, leitões… enfim. Com tanta indignação e cheia de saudades de Portugal no domingo virei-me para o cozido à portuguesa num restaurante português, como é óbvio. Um escândalo…
Então não é que o dito do cozido vinha cheia de gorduras de porco e nada de carne do dito, onde é que está a carne do porco? E os enchidos, principalmente a farinheira, uma sovinice… umas rodelas fininhas e pequeninas. Ora bem, digam-me que as pessoas não sabem que o enchido preferido dos portugueses é a farinheira… e ainda por cima é o mais barato, porque põem só um bocadinho??Mas não é tudo. Também quero ir a Portugal porque aqui está a chover. Mas mesmo a chover. Daquelas chuvas com muita água e muitos trovões e relâmpagos.Mas o problema não são os trovões e os relâmpagos, é a falta de frio.Então digam-me lá uma coisa… quando está assim a chover, com trovões e relâmpagos, não deve estar frio para se ficar enroladito no sofá com umas mantas? Mas ontem foi a gota de água… ontem caiu-me no copo a gota de água que fez transbordar a minha indignação e pôs ao de cima a minha irascibilidade de sete meses seguidos de continente africano. Fui ao hospital. Mas quem me manda a mim ir ao hospital. Mas fui.
Fui porque era incapaz de deixar ir o meu amigo sozinho e ainda por cima com uma perna partida. Depois de gritos e uivos, lá o consegui pôr no carro para o levar para as urgências do hospital. Quando cheguei à porta, o meu amigo foi prontamente retirado do carro e posto numa cadeira de rodas. Ainda nem tinha sido visto pelo médico e já me estavam a pedir 1,5 euros pela consulta. Compreendo. Pagamos logo à entrada, como nos transportes públicos. Mas a seguir ao pagamento, foi logo levado para os serviços de Raios-X. Isto até estar a ser rápido – pensei, comparando com os serviços de urgência portugueses. E “taque”, com um dlim-dlom a acompanhar, saiu a radiografia e lá estava a perna partida em duas partes. São 3,81 euros, senhora. Bolas, aqui é tudo pago às prestações. Lá paguei e toca de levar o rapaz para os serviços de ortopedia.
Uma hora à espera para ser engessado. Pelo meio ouvimos os gritos dos familiares de um senhor que morreu. Tudo aos gritos, muito gritos. O tio Joãozinho, que é aqui um amigo meu desta terra, explicou-me que ele partiu a perna, fez fractura exposta, mas a ferida gangrenou e tiveram que cortar o pé, mas a ferida infectou e morreu. Meu Deus!!!!!!!! Ainda bem que o meu amigo não fez fractura exposta. Bem lá entramos para engessar a perna. E, senhora, são 44 euros para engessar. É que é a perna toda. Uma semana com gesso na perna toda e depois para a semana muda para gesso mais pequeno, que também é mais barato. Já percebi. O gesso aqui é medido ao metro. E, senhora, são mais 5,34 para medicamentos. É analgésico e anti-inflamatório. Sabem, contas feitas, gastei cerca de 55 euros para garantir cuidados médicos num hospital público. Neste país da costa ocidental de África, o ordenado médio ronda os 44 euros e ninguém pode partir as pernas.
E é por isso que estou a contar os dias para ir a Portugal. Chateia-me estar num país onde as pessoas não podem partir as pernas quando lhes apetece e onde só servem coxas de galinha, sem me explicarem o que aconteceu ao resto do animal.

Beijinhos e até ao nosso reencontro.

Marisa


2 Responses to “Coxas de galinha”

  1. 1 alice

    não gostei da prosa nem do sentimento. Dá para ver que não amas África. Dá para ver que foste exportada tipo última hora.

    bjinhos

  2. 2 fernando peixeiro

    Marisa, é só para te dizer que o resto da galinha está aqui em Cabo Verde. Os peitos pelo menos… :)


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