Precavido Fernando,

sei-te um homem de parcos espantos, ainda não viste o porco a andar na bicicleta mas nem tudo já te faz pasmar. Cá por mim, acho sábia essa atitude e gostaria que perdurasse. Seria sinónimo de que continuas a bater-te tenazmente por aquela máxima de tentar perceber antes de botar faladura.
 Só que gostaria de te prevenir: quando vieres cá de férias, se o destino te encaminhar pela frente de alguma escola e vires muita gente lá dentro de fatos e vestidos, de branco e negro, copo na mão,uma bailação em grande, não te assustes, porque os nossos estabelecimentos de ensino ainda não foram definitivamente privatizados e sujeitos às regras do mercado livre.
Pode ser só um casamento ou baptizado. A sério. O Governo decidiu que há que pôr o património público a render e as escolas saltaram para a frente da corrida. Eu que convivo com uma aqui do outro lado da rua estou a pensar meter férias pelos Santos Populares ou trocar os sonos quando ocorrerem os grandes confrontos futebolísticos. Hão-de ser multinacionais a patrocinar ecrãs gigantes, as marcas de cerveja a promover a algazarra, a fumaça da bela sardinha assada, marchas até que a voz lhes doa e as aulas a funcionarem nos intervalos, de segunda de manhã ao final da tarde desexta. Depois, os valores da educação dão lugar ao mercado, puro e duro.
Não te estejas a rir. Veio no Diário de Notícias. O aluguer das escolas para casamentos e baptizados surge à cabeça das sugestões que um porta-voz do Ministério da Educação apresentou para desenvolver “áreas de negócio” no sector educativo. O caminho fica aberto e o dinheiro iráditar leis, entende-se. E até mesmo os (insuficientes) espaços para a prática desportiva das nossas escolas estarão abertos ao usufruto da comunidade, disse o mesmo assessor governamental. Exemplificou ele que estarão disponíveis os “ringues para torneios de solteiros e casados”,o que me parece mais um retrocesso civilizacional do que um gesto liberal. Então e os divorciados? E os viúvos não têm direito adebaterem-se numa peladinha…desde que paguem, obviamente? Parece que acabaram de desenterrar mais uma questão fracturante, Fernando.
Ah, e depois estão abertos precedentes, que não precisam da jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça.
Se aquele gesto corriqueiro para muitos de puxar do livro de cheques vai permitir que uma escola se torne num espaço que poderá até ser de diversão nocturna, como se usa nessas prolongadas farras madrugada fora que assinalam os casamentos e os baptizados, então está aberta uma porta cujo corredor sem fundo leva até onde a imaginação de umacriatura conseguir tirar partido do erário público.
Já não digo que alguém admita vir a alugar o Palácio de Belém para se sentir presidente da República por um dia, ou negociar com o primeiro-ministro desfrutar da sua secretária durante um quarto de hora e ter a sensação de “pôr um país na ordem” ou imitar um discurso às massas com aqueles dois telepontos que o “engenheiro” raras vezes dispensa quando fala ao povo ou aos seguidores do seu partido.
Mas vejo perto o dia em que a Segunda Circular vai passar a ter corridas oficiais – acabando com a clandestinidade a que são obrigados os milhares de competidores do asfalto que ali se batem todas as noites – o Cristo-Rei alugado para deslumbrantes saltos de asa delta ou o Mosteiro dos Jerónimos para arrojados congressos da indústria medicamentosa.
É assim, Fernando. O dinheiro faz falta para manter um país. E se não vem donde deve, porque a arte de fugir aos impostos é das que mais admiradores e seguidores reúne - então que venha de onde há!
Olha, e confesso-te agora aqui que isto tudo me encheu de ideias. Diz lá se não te parecia bem, num belo dia, um homem lembrar-se e poder festejar o aniversário na Torre de Belém e poder apagar lá as dezenas de velas?A única dúvida que me assiste mesmo é saber se irão colocar como opção o Velho do Restelo.

Cumprimentos desta terra liberal.

António Martins Neves 


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