Navegado Fernando,
imagino que tu por aí, como esse povo que é um bocadinho teu agora, ainda estejas à espera das trovoadas que trarão, não fartura, mas alguma água para alegria de todos e melhor sustento para muitos. E pensei nisso na pior altura: quando contemplava um rio. Daqueles a sério, sempre a mexer, silencioso mas vivo e raso de água, turvo mas rico e fértil.
A natureza nunca deixa de nos surpreender, como sabes. Basta parar um pouco o olhar e quase sempre algo está a acontecer de enriquecedor à nossa frente sem que tenhamos qualquer intervenção. Os seres e os elementos, em que jamais reparamos quando andamos obcecados, se não mesmo angustiados, passam-nos ao lado. Ignorados, esquecidos, mas com tanto para nos mostrar.Pensava nisso de olhos pregados num rio pujante, uns cinquenta metros de água de largura, enrugado pelo vento mas silencioso.
Uma força enorme que não se dá por ela, ali, à espera de quem a sulque, navegue, queira brincar, banhar-se ou apenas olhar aquele movimento incessante da mistura do vento com a força da água, mais o ímpeto da maré, como era o caso.
Lembrei-me de como seria aí um rio assim, mas desisti. Há comparações impossíveis e cenários que não se transferem. Mas já usar a memória é um exercício recomendável. Voltei menos de um ano atrás e revivi um passeio que dei no mesmo rio Sado, mas em Setúbal, num dos galeões do sal que o subiam desde a terra do Bocage até Vale de Guizo, donde as marés não conseguem passar e o curso de água caminha exclusivamente em direcção à foz.
Foi um passeio de amigos à procura de golfinhos que não estiveram para se mostrar nesse dia. Valeu saber como funcionava aquela embarcação e que a vida de marinheiro, mesmo num rio pacato, como diz o ditado, não é fácil. Os galeões que eu hoje podia estar a ver passar no Sado da varanda do primeiro andar em que me encontro sentado em Alcácer do Sal trabalhavam a vento, água e a muito esforço humano. Contou o mestre que agora passeia turistas numa embarcação restaurada, já com equipamentos modernos de navegação e todas as mordomias a apontar para a alta tecnologia, que aquele tipo de navio teve como último uso o transporte de sal do estuário do Sado, pelo rio acima, ao sabor das marés e auxiliados pelos ventos, de vela erguida.
Na volta traziam para Setúbal as riquezas produzidas nas margens. Muitos vegetais, comida, imagino que algum peixe, arroz quando era tempo…E sabes quem dominava aquelas embarcações, Fernando? Nem te ocorre. Um casal. Um homem e uma mulher que faziam dali a sua casa e dos seus filhos e trabalhavam e viviam ao som dos elementos. Quando o vento e as marés colaboravam, fosse noite ou dia.
Como não se trata de nenhum bote nem nenhuma embarcação para aprender a velejar, o mestre pediu a dois dos que seguiam a bordo para içar o pano quando uma brisa começou a amenizar uma bela tarde para desfrutar a serra da Arrábida, ali ao lado, maravilhosa como se conhece.
E não foi fácil. Aquele pano fazia muita força para não trepar mastro acima. Todo o peso dos corpos mais o esforço possível de quatro braços quase não chegaram.
Lembrei-me logo do casal. Seria a mulher ou o homem subir a vela? Muitas vezes terá sido mesmo só um, porque onde o rio é mais estreito largar o leme e arriscar a deriva poderia ser fatal. Portanto, só um par de braços teria que ter a força suficiente para abrir aquela pano todo e navegar rapidamente como sempre é desejável no trabalho. Fosse qual deles fosse, nenhum de nós se lhe comparava ou servia para tamanha tarefa. Mas ali andaram e foram vários e viveram. Já desapareceram, mas o rio continua lá, silencioso e à espera. Para levar e trazer o que os homens quiserem. Com ou sem esforço.
Um fluvial abraço.
António Martins Neves

