http://www.impac.com.brIncrédulo Fernando,
vê-se e quase não se acredita: no dia em que terminou em Lisboa o Congresso Feminista, a televisão pública (RTP) brindou-nos com uma peça supostamente informativa no Jornal da Tarde que revela como o machismo vai continuar entranhado por muitos e longos anos na nossa sociedade. Não pelos protagonistas da suposta história, mas pela forma como foi tratada pelos jornalistas responsáveis pela sua emissão. Tudo porque um homem de 88 anos pôs um anúncio no jornal para arranjar uma companheira. O que tem isto de noticioso? Nada. Foi o primeiro da sua idade a fazê-lo? Não disseram. Mas, mesmo que fosse, tal não justificaria o exercício de descriminação sexista, violação de privacidade e “voyeirismo” do mais puro.

A história televisiva aconteceu no concelho transmontano de Alijó e teve pelo menos duas partes: o início, quando a 13 de Abril passado a RTP “noticiou” que um octogenário publicara um anúncio “em busca de noiva”. Este sábado veio o epílogo. O homem encontrara alguém que preenchia os “requisitos” que impusera: “uma mulher em condições, asseada”, “carinhosa”.
Para o autor da peça, ele é “o senhor” Manuel”, ela apenas Margarida. Dele sabe-se que é viúvo e que terá filhos (aparece pelo menos um a regozijar-se com o enlace), dela o passado vem pormenorizado: viúva também, “seis filhos, mais de uma dezena de netos e três bisnetos”. A idade nunca é anunciada. Relevante a mulher ter uma vasta família, cumprir os requisitos maternais, ao homem basta-lhe ser “senhor”. O resto não interessa nada.
Conta o jornalista que ela “superou mais de 30 candidatas”. Apresenta-a montada num jumento conduzido por ele, qual princesa de história de fadas a caminho do altar, e diz que “mostrou-se pela primeira vez durante um jantar promovido pela presidente da Junta de Freguesia de Vila Verde”, onde ele reside.
“Ele viu muitas primeiro. Eu fui a última e fui a que ele quis”, revela a mulher, que classifica o homem a quem dará vários beijos frente à câmara como ”simpático, muito amável, uma pessoa boa”. Ele é contido nas emoções, como está convencionado: “É mesmo como eu queria”, “gosto de tudo quanto ela tem”.
Posto isto, estava criado ambiente para a pergunta sacramental que devia andar a martelar a cabeça do entrevistador há muito tempo. Dirigida à mulher, obviamente. “Já estiveram a sós pela primeira vez?”, atirou, não se contendo e indo logo directo ao que queria mesmo saber: “Como foi??” A mulher está por tudo, aparecer na televisão tem custos e não se pode recuar mesmo quando o embaraço se instala: “Foi…” é o que lhe sai à primeira, antes de ganhar balanço para fintar o repórter e compor o ramalhete com um provérbio: “Devagar se vai ao longe”.
Viria outro drible a seguir, desta vez protagonizado por ele, quando o ávido jornalista tenta auscultar-lhe o coração. “Sente-se apaixonado?” A resposta parece estar na ponta da língua: “Sinto-me feliz”. Então um homem pode lá ser acometido por fraquezas tamanhas? Isso de amores e paixões não é coisa de mulheres? Claro, basta ouvir a presidente da Junta, promotora do “jantar de apresentação” de Margarida aos vizinhos do “senhor Manuel” e ao Mundo. Em jeito de porta-voz não autorizada, fala sobre o que ele evitou com ardileza: “Está completamente apaixonado!”
Deixa-me só dizer-te ainda, Fernando,  que foi a televisão que originou o “encontro”. A mulher confessou que viu a “notícia” sobre a anúncio e decidiu escrever. Já se sabe quem é a madrinha, portanto. Falta o padrinho, mas algo me diz que deve ser algum curioso desbragado.
E assim assinalou a RTP o encerramento do Congresso Feminista, que não foi organizado por nenhum grupo de machistas de saias, mas tão só por mulheres que reivindicam com todo o direito o fim da descriminação que a televisão pública fez o favor de ilustrar.

Um indignado abraço.
António Martins Neves


2 Responses to “Conte-me como foi”

  1. 1 Joao Vasco Almeida

    À excepção da Maria Teresa Horta e da sua claque brasileira, que se indignam com uma piada d’O Inimigo Público, as manifestações de feminismo têm aquela força tamanha da manifestação do benfiquismo ou do santanismo.
    Polemizando: o feminismo tem o objectivo torto. Sinceramente não compreendo como se luta ainda por direitos iguais quando, neste momento, as senhoras deviam lutar sim por deveres iguais. Há uma estranha diferença nestas duas atitudes, e raramente se nota que a mulher, hoje, tem os mesmos direitos mas acumula os católicos e serôdios deveres de antanho.
    Que o “senhor” e a “Manuela” se casem, que vão devagar nos encontros a sós e que tenham uma boa vida pela frente é algo que, sinceramente, nos deve deixar ternos mas indiferentes. Que o “senhor” tenha imposto condições é também irrelevante. Como mais à frente se vê no texto, ela já começa a ser sobranceira, uma vez que o “senhor” “falhou” na primeira tentativa de estarem “a sós”.
    Ora, que resta então?
    A validade da história, claro. A sua importância para um canal de televisão. Mas sobre isto, perdoai meu bom António, mas algo me preocupa – porventura em demasia – por estes dias. E não são os casamentos e os congressos de senhoras. O que me irrita é que, invariavelmente, desde que começou este tempo morto de Verão, ao minuto 16 de cada noticiário apareça uma notícia de futebol.
    Estas sim, irritam-me. Mas essa seria outra e mais longa conversa.

  2. 2 António Martins Neves

    Caro João,

    a história poderia até passar na televisão mas num daqueles programas da manhã ou da tarde em que se enchem chouriços e se fala tudo e o mais que ocorrer para “entreter”. Nunca num noticiário. E mesmo assim acho que o ângulo devia ser a questão da solidão, de como ela afecta mais as pessoas seniores e o caso apontado como uma solução e um exemplo a seguir. Mas se calhar seria mesmo melhor pegar no casal e levá-lo ao estúdio e ter uma conversa com eles. Agora, tratado desta forma, exacerbando valores machistas, não acho aceitável.
    E o machismo que me preocupa não é o do homem, que viveu 88 anos a pensar daquele modo e já não se espera que consiga ver o mundo com os outros olhos, nem da mulher conformada. É de quem nos conta a história, que a apresenta do pior ângulo possível, vista à luz dos valores dos protagonistas, dando um cunho sensacionalista e entrando pela vida das pessoas só porque eles deixaram.
    Quanto ao feminismo: se olhares bem à volta, constatarás que a igualdade de género é algo que está ainda muito distante. E não temos o exclusivo. Basta atender ao número de mulheres presidentes ou chefes de governo dos quase 200 países do planeta. Os dedos das duas mãos devem sobrar para as contar. E as mulheres são pelo menos metade da população mundial…

    Abraço


PARCEIROS