Fumador Fernando,
tenho esta atravessada para te revelar. Ainda mal tinha começado este ano e já uma reles cigarrilha se tornara numa espécie de figura do ano. Não foi um daqueles puros cubanos, enrolado artesanalmente, do tipo morra gato, morra farto. Não, foi uma singela e fina imitação. Só porque foi parar à boca do inspector-geral da ASAE, que a acendeu num local nada apropriado, atendendo à moral e ao cumprimento da lei que vinhasustentando e aplicando.
Aquele banal gesto de deitar fogo ao pequeno cigarro castanho mal se tinha assinalado a passagem de ano deve ter sido, espero, o pior momento da vida pública de António Nunes.  

Homem de fácil adaptação, já presidiu ao então Serviço Nacional de Bombeiros, hoje chamado Protecção Civil, depois à Direcção-Geral de Viação, entretanto extinta no ano passado, e dirige, desde o início, a famosa Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE). A cigarrilha, sem saber, foi a protagonista. Tirada da caixa, atirada para os lábios do polícia-mor dos consumidores, e vai de deitar fumaça, que é para isso que o tabaco serve depois uma refeição que deve ter estado à altura do momento e dos 500 euros exigidos a cada um dos comensais, como escrevem os críticos das comidas.
Um pequeno pormenor que “só” apimentou toda a história e abriu telejornais, fez manchetes e ocupou páginas e páginas  de jornais: duas horas e meia antes entrara em vigor uma lei que impede as pessoas de fumar em recintos fechados, como aquele onde Nunes se divertia. Teve azar porque havia jornalistas a sério por perto e repararam no gesto noticioso do homem forte da ASAE, cujo desempenho não questionava até então. Tenho muitas dúvidas é sobre a justificação que deu. Muito sinceramente, Fernando, acho que fez a cama onde se vai deitar. Mas sabes que os brandos costumes, a teimosia do primeiro-ministro e tal… e ainda se aguenta por lá, na ASAE, preso por cordas, evidentemente.
Veio António Nunes logo dizer, nessa noite, que a lei do tabaco ali era diferente, porque era uma sala de jogo e a legislação contempla excepções como a daquele espaço. Mas não é por razões de saúde pública que estamos impedidos de fumar em recintos fechados? Quem frequenta casinos tem os pulmões blindados? Ou será só porque um casino é uma fonte de rendimento importante para as finanças do país e isso deixa cair tamanhas preocupações numa terra onde se desconhecem estatísticas sobre o número de automobilistas multados por as respectivas viaturas largarem tornos de fumo negro quando se arrastam pelas estradas que vamos mantendo?
Nunes sabe que não devia ter atiçado fogo àquela cigarrilha. E faltou-lhe a coragem e a frontalidade das pessoas livres para o afirmar publicamente, e logo naquela noite. Tinha acabado com a questão. Quando veio argumentar com a legalidade do gesto, atirou tudo a perder. E mais: colocou em causa todo o trabalho que a ASAE vem realizando, com o qual concordo. Não subscrevi uma petição que apareceu na Internet a insurgir-se contra o “policiamento” que os homens de Nunes têm feito, fechando restaurantes, bares e outros locais onde as regras de higiene estavam no caixote do lixo. Não temos emenda, Fernando. Se não se cumpre a lei, é porque não se cumpre. Quando alguém se propõe pôr a casa em ordem, cai o Carmo e a Trindade, que lá vem a ditadura outra vez. Quase tudo por causa da ginginha do Rossio, imagina. Já provei, mas não faço ideia do que lá põem. Se é sobre tradições, muitas outras estão a ser destruídas e ninguém levantou um dedo para o evitar. Por causa de fecharem a casa das ginjas pareceu que tínhamos perdido a identidade nacional… Houve alguns excessos, claro. Mas nunca vi tanta preocupação da restauração e dos serviços públicos em cumprir leis que faziam gala até de ignorar. Quem ganha com isto? A saúde de todos nós. Por isso, António Nunes, o público responsável por essa evolução, não pode vir um dia mostrar em público que afinal há excepções na lei, principalmente onde o exigente fiscalizador se encontra presente.
Olha, acho que têm que ir procurar outro Nunes, de preferência que mantenha a ASAE no nível actual, mas consiga evitar puxar de cigarrilhas numa sala fechada.

Um abraço de um não fumador.

António Martins Neves


1 Response to “Cigarrilha candidata a figura do ano”

  1. 1 Desculpem lá isso, pá! at Atlântico expresso

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