Caro Fernando, com os teus sapatos de vela,
ainda continuo calçado como tu, mas não é de sapatos que gostaria de te falar nesta minha carta. Tu tens-me contado sobre tartarugas, cães raivosos, mas a mim o mundo animal tem passado ao lado nesta correspondência. Até hoje, que me ocorreu uma viagem a Trás-os-Montes em que vi pela primeira vez, e única, uma chega de bois, que é uma luta sem grandes consequências para os animais – pelo menos a que presenciei – mas empolgante para as “claques”.
Montalegre, junto à fronteira com Espanha, inverno rigoroso, nevara abundantemente durante a noite, mas o dia amanheceu com sol, embora bastante frio. Indicaram-me o local e fui para lá logo cedo, não queria perder pitada, porque me “cheirou” que ia haver assunto para reportagem.
Ia-se por uma estrada estreita, que levava à fronteira. A determinada altura havia uma clareia entre as giestas, uma espécie de ringue natural, o terreno estava empapado. Seria ali. Os espectadores eram “assaltados” logo à chegada por alguém que lhes cobrava uma quantia que já não recordo em troca de uma daquelas senhas com que também se fazem rifas. Uma espécie de livre trânsito para ver marrar.
As vedetas chegaram em camionetas. Dois enormes toiros que se foram apear onde o terreno permitia descer sem sobressaltos nem lesões atléticas.
Um era desmedido. Dois metros de altura e mais de uma tonelada de peso, disse-me o dono. Uma montanha de carne com patas, observei eu. Mas com comportamento de cachorro. Manso, dócil, atrás do dono, que o conduzia por uma singela corda. Retenho que, com aquele “tique” de enxotar as moscas com a cauda, quando seguia pela beira da estrada, enterrando as patas na berma, deu uma sacudidela que colheu uma motorizada estacionada, atirando-a por terra sem apelo. Em frente, sem olhar.
O outro contendor tinha menos corpo, mas parecia ser mais velho, o que o dono confirmou. Bicho mais experiente que o adversário, um novato de grande corpanzil mas a quem tinham confrontado poucas vezes com outros da sua espécie.
Deixa-me fazer um intervalo para te explicar que, não há muitos anos, os “bois do povo”, em Trás-os-Montes, como eram conhecidos, ocupavam o lugar que as equipas de futebol reivindicam hoje no arrebatar das gentes, no culto da emoção, na identificação com o seu clã, o seu grupo. Eram animais que serviam para reprodução, no essencial, e cada aldeia tinha um, que dava emprenhar as vacas todas da terra. Como tentavam apurar o melhor possível as raças, os eleitos eram sempre os animais mais distintos e com as melhores características. Os mais fortes, em suma.
Com o passar dos tempos, contaram-me na altura, a rivalidade entre as aldeias traduzida nas lutas entre os bois de cada uma delas perdeu a autenticidade, mas alguns proprietários de gado descobriram que afinal ainda havia público para o “espectáculo” e decidiram fazer reviver as lutas de bois numa perspectiva empresarial e ganhar dinheiro com a força dos animais.
O que eu testemunhei foi um negócio previamente estabelecido. O dono do animal que ganhasse levava a parte de leão da colecta feita ali à beira a estrada, a quem ia chegando. Reunidos os contendores, foi largá-los que as cabeças logo se uniram com estrondo, patas cravadas no chão lamacento. Foi coisa rápida. A força do mais novo e mais corpulento foi dominada pela astúcia do adversário, menor mas experiente. E logo o derrotado, sem sofrer danos físicos, correu a esconder-se entre as giestas, enquanto o vencedor se deixou ficar, para ser observado e gozar mimos e festas de adeptos e admiradores. Diria mesmo que havia ali uma ponta de vaidade bovina, naquele deixar-se ficar. Ao contrário, o vencido enfiou os cornos no giestal, lá longe do povo e do vencedor, como se a vergonha se tivesse apoderado daquela montanha de animal. E não foi fácil ao dono convencê-lo a voltar para casa. São animais, Fernando.
Um abraço “chegado”.
António Martins Neves

