Casa Pia e Maddie ameaçam ser nódoas eternas na gravata da Justiça
fechado Publicado por António Martins Neves 8 Outubro 2007 em Portugal.
Linguísta Fernando,
nessa coisa dos tempos verbais estamos quase de acordo, embora eu ache que o gerúndio dá uma noção de continuidade que pode ser bastante útil no discurso, se usado com contenção. Mas tem, como dizes, um lado negro, de que não faltam maus exemplos. Para mim, antes do gerúndio, “matava de morte matada”, como dizem os brasileiros, o verbo desenrascar, essa instituição que suporta o nosso país com arames. Mas já que te vejo tão preocupado com esse tempo verbal, deixa-me dizer-te que por aqui, o que foram grandes casos que apaixonaram o país continuam ser pronunciados nesse mesmo gerúndio: falo-te no processo de pedofilia da Casa Pia e no mais recente caso Maddie.
O processo de abuso de menores na instituição lisboeta, lá se vai “julgando”, ignora-se até quando e muito menos com que previsíveis resultados. Pelo que conhecemos das sessões, provar em tribunal o que está na acusação é um quebra-cabeças e o que se vislumbra é mais uma montanha a parir um rato, porque o que realça é que muito pouco do que se falou vai ficar provado nas audiências. Lá se vai “arrastando”…
Vai-me “parecendo” que testemunhas e acusados vivem em dois mundos. Tudo o que os primeiros dizem, sob juramento e impossibilitados de mentir, os segundos apelidam logo da mais pura patranha sem qualquer cabimento e alegadamente desmontada em dois tempos. E ainda falta ouvir centenas de testemunhas, Fernando! Soube-se agora que o martírio para as crianças da instituição pode não ter acabado – a antiga provedora disse-o ao procurador-geral da República e ele abriu um inquérito, pelo que se promete uma segunda versão da “série”. Eu desaconselhava que fosse como a primeira, com as condenações do costume na praça pública e as precipitações de investigadores e Ministério Público e nenhuma condenação efectiva depois do estardalhaço.
Sugiro que vão buscar o procurador que investigou o processo de pedofilia dos Açores que ficou conhecido como caso “Farfalha”. A investigação foi rápida e o julgamento demorou pouco mais de um mês, apesar de ter 18 arguidos. Se atendermos que 14 deles foram condenados, um a 14 anos de cadeia, a recolha de prova deve ter sido bem feita, apesar de envolver menores com características semelhantes aos alunos da Casa Pia que terão sido abusados sexualmente: nados e criados no meio de grande miséria humana e material, habituados a ter um discurso para sobreviver e não para acreditar.
O caso da criança inglesa desparecida no Algarve há mais de seis meses também promete ir-se “prolongando”. Com as recentes demissões e pedidos de afastamento dos investigadores que lideravam o misterioso processo à volta do sumiço de Madeleine, avista-se um folhetim infindável que só vai servir verdadeiramente para os ingleses irem “desancando” na Polícia Judiciária perante o infindável folhetim. E quer-me parecer que lá da “ilha” ainda vão mandar uns golpes que vão cortar mais umas cabeças por cá. A seu tempo voltarei ao assunto. Por agora, os nossos polícias continuam “trabalhando” e nós “acreditando”…
Mas agora, já que o director da PJ se meteu na história “afastando” o coordenador da investigação, decisão que o ministro da Justiça se apressou a subscrever, vamos aguardar os avanços que aí vêm e esperar quem vão ser os polícias que querem o lugar dos colegas que foram demitidos ou pediram para sair. Acho que não vai ser fácil encontrar quem queira a batata quente e um desfecho é coisa que temos que ir “aguardando” com muita paciência. Se nada acontecer, o ministro Alberto Costa já sabe o que tem a fazer: telefonar ao director da PJ que nomeou e combinarem quando cada um vai para casa. Será a única vez em que não poderão aplicar o gerúndio, porque ainda não criaram a possibilidade de se irem “demitindo”…
Um regular abraço.
António Martins Neves

