Carta sobre as crianças torturadas
2 comentários Publicado por António Martins Neves 10 Outubro 2007 em Portugal.Amargurado Fernando,
não é só aí que os pais tratam mal os próprios filhos, como sabes. Por isso hoje apetece-me escrever-te uma carta que gostaria que todos os adultos lessem. E compreendessem também. Ainda te lembrarás da Joana, do Algarve, cuja mãe e tio foram condenados a pesadas penas de prisão por terem sido considerados autores da morte da menina. Também no Porto, em Melgaço, em Viseu, há casos de crianças cujos pais foram os algozes dos próprios filhos. Malfadada sociedade esta que “produz” cidadãos que, incapazes de cuidar dos filhos, chegam a ser capazes de os levar à morte.
Acho que já era tempo dos cientistas sociais virem explicar o que se passa e contribuírem para evitar mais uns dramas, umas desgraças indescritíveis e…umas aberturas de telejornal. Os pais que maltrataram os filhos revelam-se mesmo o pior retrato de uma sociedade, Fernando. Se não conseguimos, ou não queremos, ou não estamos preparados para cuidar da nossa descendência, de que seremos capazes? Que sentimentos nos restam? Que objectivos nos motivam? Que futuro queremos? Nada, zero, nenhum, o vazio absoluto, um buraco negro, eis as respostas possíveis. Parece o abismo e às vezes interrogo-me se não é para lá que vamos a passadas largas.
Falei-te há dias do escândalo de pedofilia na Casa Pia, que, segundo disse recentemente a antiga provedora Catalina Pestana, não acabou e continua a haver alunos da instituição violentados por adultos. Maddie, a pequena inglesa desaparecida no Algarve há mais de seis meses, já foi citada em várias cartas que te escrevi e vem engrossar, qualquer que venha a ser o desfecho do caso, essa horda infindável de crianças vítimas de adultos, em muitos casos os próprios pais. Que sociedade “moderna” é esta, Fernando? Foi para aqui que evoluímos? Povos que mantiveram tradições próprias e recusaram a “evolução” a que os quisémos obrigar, como os índios xingú ou os ianomani do Brasil tratarão assim os filhos? Completamente improvável. A nossa descendência não depende das crianças?
Já fomos “programados” para ter como primeira prioridade assegurar a sobrevivência da nossa espécie, mas essa característica comum a todos os animais e plantas parece ter desaparecido dos objectivos de muitos humanos. Como se não bastasse esse abundante quadro de miséria humana que são os maus tratos de toda a ordem infligidos a crianças, quase sempre por quem tem obrigação de cuidar delas, há ainda quem consiga ter prazer por assistir a isso. Aqui engrossa a massa indiscritível dos consumidores de pornografia infantil, que hoje foram alvo de uma grande operação em Portugal. A Polícia Judiciária identificou 80 possíveis pessoas e mais de 130 computadores onde essa atrocidade era observada e paga, porque é de um negócio que se trata, Fernando. Pelos vistos, além das dezenas de pedófilos presos todos os anos, arrisco dizer que há centenas de pessoas aqui na nossa terra que pagam para ver o que se me aparenta como dos crimes mais horrendos e quase inimagináveis: adultos a violarem crianças e a registarem o momento porque há, pelo mundo inteiro, milhares de monstros que, asseguram as polícias, pagam para ver bebés a serem seviciados e crianças a serem horrorosamente torturadas. Para gozo de muitos, acrescentam os especialistas. Estou, e fico de cada vez que penso nisso, com náuseas, enojado, descrente, pessimista e desconfiado dos da minha espécie. Penso, nestes momentos, que nos devíamos distinguir, pela capacidade de evoluir no pensamento e, consequentemente, nas atitudes. A seguir viria quem melhor que nós faria, mas…vejo o inverso. Vou terminar por aqui. Desculpa-me este pesado desabafo, mas a prosa escorreu-me hoje para este lado maldito e bem real…
Um esperançoso abraço.
António Martins Neves


É uma carta tão triste que subitamente me apeteceu dizer que existem coisas bonitas no mundo… como quando somos crianças – daquelas que também há… – e nos escondem as guerras e outras atrocidades, plantando-nos flores pelo caminho…
Muito nos apraz parabenizá-los pelo site.
Nossas felicitações.