
Omnívoro Fernando,
anda aqui um grupo de pessoas a querer formar um partido para defender os outros animais, os irracionais. Que o resto não lhes interessa, os bichos sim estão desprotegidos e é preciso deputados de duas pernas para fazer valer os interesses de cães, gatos, bovinos, caprinos e seus semelhantes. Eles sentem-se mandatados para isso e andam a recolher assinaturas de…outras pessoas. Assim à primeira vista, parece meritório. Se tentarmos ver para além da cortina de fumo, não encontro benevolência na atitude.
Há dias dei de caras com uma frase escrita que me causou perplexidade e se afigura como reveladora da intolerância que cada vez ameaça mais o grupo de animais que constitui a nossa civilização. Assim de rompante, aquilo até não se entendia, mas o local onde fora escrita com uma lata de spray esclarecia o alcance da coisa. “Carne é crime”, lia-se na caixa frigorífica de uma carrinha de onde um homem vestido de braço descarregava carcaças de porco para um talho, numa rua de Lisboa. Franzi a sobrancelha. Por outras palavras, o que estava ali dito era que quem come carne é criminoso. É o meu caso. Ora essa! Eu que sempre me considerei um zelador dos interesses dos muitos animais com que já convivi na vida estaria da iminência de ir parar à cadeia se o escriba daquela frase conseguisse arregimentar subscritores para o disparate com que esborratara a camioneta da distribuição de carne? Corro riscos se for apanhado a comer uma coxa de frango por perspectiváveis brigadas de zeladores famintos por encontrar uma proteína animal num prato, como talibã em busca de tornozelo feminino? Não posso crer, mas quem não quer ver mais do que a vista alcança cai nestes ridículos. Fundamentalismos não existem só lá para a Ásia ou aí em África, onde em nome dos bons costumes há uns senhores a reprimirem povos a seu belo proveito, em nome da moral deles. Aqui, assim, vamos pelo mesmo caminho. Defendo onde for necessário que quem tenha um cão ou um gato fechados num apartamento não gosta deles. Criou-se a “moda” dos animais domésticos, com o alto patrocínio dos fabricantes de rações – um dos grandes negócios legais da actualidade – e houve um grupo de bem pensantes que arranjou logo argumentos para justificar todas as torturas necessárias para suportar os ditos animais de companhia. A pior de todas é a castração: sem poderem procriar, animais transformados em peças decorativas perdem a sua principal razão de existir. Isto nunca ouvi da boca de um defensor dos direitos dos animais. Mas quero crer que haja quem o afirme, em nome da civilização, pelo menos. Implícito na atitude de quem diz que consumir carne é crime está o sofrimento infligido pelos humanos aos seres vivos, em geral. E o mundo só não se tornará uma prisão gigantesca porque morreremos todos antes…à fome. Não posso crer que gente tão preocupada com o sofrimento alheio possa admitir que se “mate” uma couve ou permita que se cometa a barbaridade de arrancar uma maçã da árvore. Quando penso nisto tudo, ocorrem-me logo as centenas de mosquitos que se esmagaram (fui eu que os esmaguei!) contra a frente do meu carro. Atendendo ao número, não me livraria da pena máxima. É fraco o consolo, mas folgo saber que ninguém se livrará de tais grilhetas. Não haverá pobres nem ricos nesta justiça. Um exemplo: o que aconteceria ao Cristiano Ronaldo depois de passar 90 minutos a esmagar e arrancar a relva de um estádio?
Um sensato abraço.
António Martins Neves


