Leal Fernando,
quando te estou a escrever estas linhas, ele deve estar a viajar com a “família” entre o Ribatejo e Lisboa, refastelado com as crianças no banco de trás. Mal abram a porta do carro, vai ser o primeiro a sair e não se vai preocupar com malas nem carrinhos. Depois de uma semana fora, provavelmente vai querer matar saudades da casa e do gato. Se chegar de dia e lhe permitirem, ainda vai dar uma volta pelo bairro e rever os amigos da cidade, antes de tornar para conforto do lar. Segunda-feira lá volta à rotina. Sair de manhã e regressar apenas ao fim do dia, como fazem todos lá em casa.

Falo-te de “Odie”, um cachorro especial que conheci há poucas semanas. Não sabe o que é uma trela e devia ficar com uma depressão incurável se o amarrassem. Deixou-me fazer-lhe uma festa porque estava com os donos, o João e a Cláudia. Caso contrário que tirasse da ideia essa mania que os humanos têm de passar a mão pelo pêlo de um cão a sério. Está a meio (tem oito anos) de uma vida intensa e como quase todos nós nunca teve o destino nas mãos. Uma tragédia ia colocando ponto final a uma vida que acabou por se recompôr. Mas como nem tudo é mau na vida, a Cláudia viu o gesto assassino de quem atirou o cachorro janela fora ali para os lados do Pinhal Novo numa noite fria de Fevereiro. Para quem achar que a vida de um cão tem obrigatoriamente que ser má, “Odie” cá está para provar o contrário. Escapou daquele voo quase fatal e ganhou uma família a sério. E parece não se ter esquecido. Não é de esquisitices quando é hora de comer, gosta do campo e da cidade, de andar a pé ou de carro e nem levantou a voz quando um gato pequeno passou a viver lá em casa. Friorento como é, até aceitou dividir a cama com ele. Sem ponta de preconceito.
Falemos então da rua, onde o nosso cão preto passa os dias. Na idade do atrevimento, num passeio nocturno decidiu ir descobrir mundo e no meio das trevas desapareceu em plenos Olivais. Chamaram, procuraram, esperaram e… nada. O casal conformou-se: o “Odie” desaparecera. Preparavam-se para fazer o luto quando, na madrugada seguinte, ao sair de casa, Cláudia deu de caras com o vadio. “Ah voltáste?! Então espera…”, conta-me o João ter pensado na altura. Pensou e fez. Quando saiu levou-o consigo, enfiou-se sózinho do carro e acelerou. Ele lá ficou na rua. Até hoje nunca mais levou a mal aquele gesto e aprendeu a passar os dias em liberdade, situação bem mais adequada a qualquer cão do que ficar a vida fechado num apartamento a contocer-se de bexiga cheia porque os donos têm que se esfalfar lá nos empregos e apertos de cão não são argumento que se apresente ao chefe para sair antes do trabalho concluído.
O João calcula que já tenha sido atropelado dezenas de vezes e as cicatrizes não enganam. Mas se uma vida em muitos prédios e poucos jardins pode não ter segredos para um cão atrevido, também a realidade campestre pode ser dominada e usufruída. Em determinada altura a família morou no Ribatejo, onde fez amigos para a vida. Quando lá regressa, é certinho que vai reviver o passado e trocar umas lambidelas e dar umas corridas a campo aberto. Se der tempo, um silvado que emane cheiro a coelho pode ser um belo desafio e fazer até esquecer que há regresso. Aconteceu da última vez: não deu pelo tempo passar e quando voltou já os donos tinham partido. Lá ficou uma semana de “férias” com o ramo da família residente na aldeia. Sem sombra de problemas, pese embora um cão também seja atacado pelas saudades.
Para quem já usufruiu de duas casas em Lisboa e deslocava-se diariamente entre uma e outra várias vezes ao dia, nada de anormal. Uma era perto da Rotunda do Aeroporto, a outra ao fundo da Avenida Marechal Gomes da Costa, depois à direita, mais umas voltas sem marear, alguns quilómetros nas patas, e pronto, chegava ao outro lar. O João diz que nunca ninguém soube como atravessava a avenida, que nem é permeável nem a um cão destemido. Provavelmente ia mesmo pelas passagens aéreas como os outros peões. Mais insólitos? Bem, uma vez trincou duas lâmpadas que apanhou a jeito e nem azia lhe fizeram. Um estômago de aço como convêm. Deixei para o fim a mais radical das experiências do cão a quem baptizaram com o nome do infeliz canídeio que teve a sina de ir morar para casa do gato Garfield. O cenário foi uma praça de vacas em Castelo de Vide. O povo juntou-se como de costume para ver e realizar umas alarvidades com umas vitelas e “Odie” deve ter achado o desafio à altura. Sem que ninguém desse por ele, desceu das bancadas, deu as voltas que era preciso e foi acolhido com uma gargalhada geral quando deu de focinho com uma vaca espavorida . Foi um agora corres tu atrás de mim, ora agora vou eu a chegar-te aos calcanhares. Uma tarde memorável, e diferente, claro está. Conta o João que ainda agora em Castelo de Vide, onde está outro ramo da família e onde também não há beco estranho, a veia tauromáquica do animal é comentada. Posto isto, deixa-me só dizer-te, antes de terminar, que nunca mais vou usar aquela triste expressão da “vida de cão”. É que alguns têm “vida de Lordie”.

Um canino abraço.

António Martins Neves


3 Responses to “Cão com sorte”

  1. 1 rouxinoldebernardim.blogspot.com

    Já dizia o Manuel Alegre: «Um cão como nós!»

    Quanto mais conheço alguns homens mais aprecio os bichos…

    Isto não é nihilismo em relação à raça humana. Há lindas criaturas
    no meu blogue erótico-científico-político-desportivo.

  2. 2 Cláudia Monteiro

    Obrigado pelas palavras sobre o nosso canino

  3. 3 Ana Santos

    “De todos os animais que conhecemos é o cão o que mais se uniu a nós. Sejam príncipes que lhe dão farta comida e leito de plumas, ou mendigos que dormem ao relento e só podem oferecer-lhe uma pequena parte das suas próprias migalhas, idêntica é a sua afeição e dedicação, e com igual amor lambe a mão ornada de jóias e os dedos trêmulos, consumidos de doenças e fome.”

    (Théo Gygas, “O cão em nossa casa”)