Afortunado Fernando,
essa cadela tem que se lhe diga e não deve ficar rubra por ver um porco a andar de triciclo, sequer. Desde que li a tua última carta que não parou a torrente de soluções que me ocorrem poder ser resolvidas por essa canina criatura. Tudo temperado com a atitude encantatória de um animal resolver adoptar um humano.
O relato remete para a lista das vulgaridades maiores da humanidade a história do homem que mordeu o cão.
Cadela que apresenta um centro histórico manifesta faculdades equivalentes a qualquer guia turístico, falante. Dominará o passado, avança desenvolta no presente, mesmo que só com três patas, e não terá dúvidas e raramente se enganará quanto ao futuro. E outras duas grandes ocasiões me surgem logo à frente do olhar que essa alma expedita – que certamente transportá dentro - tornaria em banalidades que se ultrapassam com pouco mais do que um estalar de dedos.
Na primeira, o faro de que usufrui seria mais que suficiente. Refiro-me a esse flagelo do roubo na praia das alporcatas, modernamente designadas por havaianas. Rafeiro assim não terá dificuldade em desencantar chinelos de banhistas a grande profundidade na areia. Basta cheirar o pé, registar o dna do
chulé e partir. Numa ilha não será difícil a esse animal dotado desencantar esses plásticos de enfiar no dedão . Negócio à vista, Fernando! Se à tua amiga adoptada não lhe ocorrer, avança com a proposta da “joint-venture”. O animal fareja, encontra e…vocês recebem pelo trabalho. Vai dar para importar picanha até! Teremos cão feliz, asseguro-te.
Esse remeterá seguramente para a história outros episódios caninos que conheci. O perdigueiro que ia religiosamente buscar ao terminal da rodoviária o rolo de jornais para a papelaria do dono e o outro, aqui à beira da Lusa, que guardava como um mastim despudorado a caixa rasa de bolos que os pasteleitos madrugadores depositavama à porta enquanto os donos não chegavam ao restaurante . Dali ninguém comia! E palavra de cão não se contesta porque é imposta à dentada, Fernando!
Mas essa cadela prodigiosa pode ainda ter um papel fundamental para ultrapassar outra realidade que me dizes afectar esse arquipélago: a matança das tartarugas! Vejo-a sem dificuldade a montar guarda nas praias, queixo assente nas patas cruzadas, a ver as carapaças sair da água, abrir os buracos na areia e deitar lá os ovos. Nem um laivo de saliva lhe sairia do focinho ao ver o petisco aconchegar-se na areia. E desgraçada seria a sorte do humano que se atrevesse a avançar no ímpeto da gemada ou mesmo para deitar as mãos a um dos animais e o elevar gastronomicamente. Serviço público? Sem dúvida, Fernando. Olha-me para esse prodígio da natureza, aconselho-te eu. Ah, mas desvaloriza o pormenor da incontinência. Ninguém é perfeito…e há sempre uns impermeáveis para os bancos.
Um abraço canino.
António Martins Neves

