Regozijado Fernando,
venho propor-te hoje que levantes um copo e façamos um brinde a essa mulher corajosa chamada Ingrid Betancourt, libertada numa operação militar – daquelas que só costumam acontecer nos filmes – depois de mais de seis anos sequestrada por uma organização de guerrilheiros colombiana.O “crime” que cometeu? Ter sido candidata a presidente da República da Colômbia e recusar ceder às ameaças e à chantagem de quem a queria calar, evitando que denunciasse a corrupção instalada no país. Vivia num dos estados mais violentos do mundo, minado pelos poderosos negócios da cocaína, de que também é um dos maiores produtores, senão mesmo o principal. Sabia que a sua atitude tinha um preço caro, mas nunca vacilou. Queria tornar a sua terra,  dominada pelos cartéis da droga, mílicias de todas a cores  e exércitos de terroristas, num local mais justo. Pelo que diz a franco-colombiana (tem também nacionalidade francesa), os quase sete anos de reclusão na selva não lhe amoleceram as convicções. Para já, o seu principal objectivo é libertar os cerca de 700 reféns que se mantém em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que já foram um autêntico exército alimentado pelo negócio dos raptos e pelo tráfico de cocaína, mas que agora parecem estar finalmente em fase descendente. 
Antes de sequestrada, foi “advertida” pessoalmente mas nunca vacilou. Quando andava em campanha eleitoral, em 2002, as FARC sequestraram-na e mantiveram-na prisioneira até quarta-feira. Durante 2321 dias. Passou três anos acorrentada 24 horas por dia e foi torturada, contou ela depois de libertada.
A operação militar que a conseguiu resgatar da mata colombiana com outros 14 reféns, tal como é contada, vai dar um filme de certeza. Demorou apenas 22 minutos e 13 segundos e os homens que a guardavam foram tão bem enganados que entregaram os sequestrados aos militares, que julgavam ser guerrilheiros como eles. Não foi disparado um único tiro. Uma história com final feliz. Os comentadores dizem agora que Ingrid Betancourt é mulher para retomar a carreira política. Chegou a ser senadora em Bogotá. Aqui te deixo uma história bem amarga mas com um final feliz e inesperado, Fernando. Mas a alegria que nos chegou de fora sofreu um rude golpe aqui em Portugal: um partido supostamente democrático, com representação parlamentar, o PCP, recusou votar favoravelmente uma moção apresentada na Assembleia da República a congratular-se com a libertação de Ingrid. O argumento não podia ser mais disparatado: o texto seria uma forma de legitimar o regime colombiano, que é de direita mas até foi eleito democraticamente. Claro que se fosse em Cuba ou na Coreia do Norte, países que todos sabemos viverem nas mais puras democracias, os comunistas portugueses não hesitariam um segundo em manifestar a sua mais profunda solidariedade. Assim, numa elucidativa revelação da maior coerência, o PCP, que já convidou o braço político das FARC para a sua festa do Avante e acha legítimo um grupo de criminosos sobreviver do dinheiro que consegue em troca das pessoas que rapta e do negócio da cocaína, que destrói milhares e milhares de vidas, acaba a concordar que se mantenham pessoas reféns com supostos argumentos ideológicos. Uma tristeza…

Um solidário abraço.

António Martins Neves


1 Response to “Brindemos por Ingrid”

  1. 1 Nuno Simas

    O maior problema é o PCP NÃO CONDENAR o rapto e o sequestro como método de luta política. As FARC, afinal, são revolucionárias e há anos que querem instaurar um regime socialista! E a essa música, sim, o PCP é sensível!!! Enfim…