escuridaoDiscreto Fernando,

entraram e ficaram logo ali naquele recanto do balcão, ao pé da porta, sem trocarem palavra. Impávidos. Ela apoiou os cotovelos no vidro e colocou as duas mãos por baixo do queixo, os dedos semi-entrelaçados numa pose ensaiada. Usava um vestido preto, solto, apertado na cintura. Sem mangas e pelo joelho. A sua silhueta não passava despercebida, embora fosse magra, pernas e braços finos. Andava em cima de umas sandálias muito altas e pretas também. Parecia muito elegante. Ele não encaixava ali. Usava fato claro sem gravata, camisa às riscas, semi-calvo como um frade franciscano, grisalho.

Levaram-lhes duas flutes com uma bebida que poderia ser vinho branco, champanhe. Sempre calados. Ela sabia estar, como costumam dizer. Ele não estava cómodo naquela farda. De repente apaga-se a luz, volta, desaparece de novo e o ambiente não se esvai também porque há umas luzes de presença. A penumbra instala-se.
Quando finalmente aconteceu o que esperavam e vagou uma mesa, sentaram-se, e o silêncio também. Pareciam não ter nada para dizer, nem para olhar, nem para tocar. Deve ter sido quando ele reabasteceu pela segunda vez os copos de vinho tinto que se começaram a ouvir duas vozes opostas. Ela possante, projectada, fazendo-se ouvir com uma clareza e determinação invulgares. Ele a mastigar as palavras antes de as libertar, a comer-lhes quase metade antes de as dizer pelos lábios semicerrados. Aparentemente nervoso. Toca o telefone e ele  começa a falar de impostos, que lhe tinham feito um acerto no IRS e tinha que pagar 2.000 euros. Que era de há alguns anos. Falhou alguma coisa, ficaram facturas por entregar, porquê agora? Do outro lado devia estar o contabilista. A conversa enveredou por caminhos que pediam privacidade. Levantou-se e foi para a rua. O telefone dela toca. “Oi”, disse com sotaque inimitável. “Tou com ele. Você tá onde? Depois eu ligo, tá? Xau”. Ele regressa ainda a falar e com a mesma conversa do imposto, a sublinhar sempre o descontentamento com o desembolso.
No espaço domina a falta de luz e as razões para tanto. Sem televisão, as conversas ganham outra visibilidade. Diz ele: “Eu só quero ser livre”. Responde ela: “Você precisa é ser amado…” e, uns instantes depois, toma definitivamente as rédeas da conversa: “Eu sou uma mulher resolvida!” Ele não, portanto. Já tinham andado pela religião, a debater quem foi o Adão e a Eva. O suposto empresário a tentar ser informal e a dizer que várias religiões reconheciam que tudo começou mesmo com o tal casal, ela a tentar contrariá-lo e a puxar a conversa para um terreno escorregadio: “É preciso acreditar, ter fé…”. Ele, homem de números e de contas, quase a estrebuchar, ela a fazê-lo cair “na real”: “Hoje lhe passei dez camisas”. E fez-se luz. O multibanco regressou e eles lá ficaram.

Um desinteressado abraço.

António Martins Neves


2 Responses to “Breve relato de um apagão”

  1. 1 carla

    O silêncio, nas tuas mãos, encontra o norte porque a escuridão não ilumina qualquer um. São poucos os escolhidos mas tu, António, tens o poder de eternizar um apagão. De o tornar teu e de o tornar também, graças à tua generosidade, automáticamente nosso.
    Obrigado!

    Carla

  2. 2 Ana Martins

    “Oi”, disse com sotaque inimitável. “Tou com ele. Você tá onde? Depois eu ligo, tá? Xau”

    Maravilhoso momento! Ao pincelares a personagem feminina com sotaque apenas num “oi”, abres a mente do leitor. Já perceberam tudo e ainda nem explicaste nada, contudo – tudo em duas letras. Fascinante.
    O segundo momento “Tou com ele.” Elucida o carácter da relação.
    É muito bom, António.
    Escreve, amigo, repito-me sempre – tu tens mão. Que estás à espera?
    Um abraço apertado