Breve homenagem a um escritor e libertino
3 comentários Publicado por António Martins Neves 6 Janeiro 2008 em Portugal.
Caro Fernando,
num dia de 1989, que não recordo, entrou pela redacção do Diário Popular adentro uma estranha figura que nunca tinha visto na vida. Calçava umas galochas borracheiras com as calças por dentro, vestida o casaco de um fato de oleado daqueles usados pelos operários e julgo que transportava um saco de plástico em cada mão. Tinha uns óculos com umas lentes garrafais e o cabelo desalinhado e fazia uma algazarra enorme. Era O Luiz Pacheco, com quem nunca mais me cruzei, e que morreu ontem.
Recordo que o Chefe de Redacção, o Acácio Barradas, mal deu pela visita, que conhecia bem, veio na sua passada larga buscá-lo. “Epá, não te quero aqui, porque não deixas trabalhar ninguém”. E levou-o para o seu gabinete. Perguntei e disseram-me de quem se trava. Das últimas vezes que ouvi falar dele foi pela boca do José Andrade Santos, com quem sempre manteve um relacionamento mais ou menos próximo, apesar de esporádico. Um dia o Andrade montou-se na sua mota e foi a Palmela visitá-lo ao lar onde estava na altura e contou depois alguns passos da conversa. Que nunca tinha estado tão bem na vida – cama, mesa e roupa lavada – que as mulheres só já podiam ser para recordar ou ver, mas não se conteve, o libertino, de lhe perguntar: “Olha lá: aquela gaja boa da ANOP (a M…) ainda trabalha lá?”.
Era assim o Luiz Pacheco, alucinado, frontal e corajoso como poucos. Talvez esta fosse a sua maior qualidade: a coragem. Depois tinha muitos defeitos. A indumentária com o que o vi da redacção do Diário Popular era a que sempre usava, disse-me depois quem o conhecia. Nos sacos trazia coisas que lhe davam. Quase tudo o que a imaginação permita. Costumava dizer que calçava sapatos número universal.
Escrevia desalmadamente bem, como recorda o Nuno (uma, duas, três, quatro vezes), a quem mandei uma sms esta madrugada, a anunciar-lhe a morte, quando soube. Dizia que tinha 23 doenças, como o fez numa entrevista ao Correio da Manhã há menos de um ano onde afirmou não saber quem era José Sócrates. No que julgo ter sido o último livro que publicou escreveu em maiúsculas “O CORPO DE UMA MULHER É UM TESOURO UNIVERSAL”, ele que chegou a estar preso na Cadeia do Limoeiro por ter tirado a virgindade a duas menores.
Essa obra – “numerando, mirabolando”, editada por si próprio em Setembro de 1995, propunha-se ser o primeiro livro de uma “autobiografiazinha em fragmentos dispersos pelos tempos que correm”.
Um dos capítulos chama-se “Historieta Anti-Alcooólica, S.F.F.” e começa assim: “Era uma vez um sujeitinho que já tinha idade para ter juízo (andava nos quarenta e picos) e bebia demais. Um sede assim nunca se vira. Escorrompichava tudo. Cervejolas, principalmente, se o dinheiro abundava; senão, caía nos tintaços, na rasca bagaceira. Liso de todo, era quanto viesse, fiado ou pago por beneméritos compinchas de balcão (…)Acontece que o tipo usava o mesmo nome do que eu. Malvada coincidência.” Foi um dos últimos surrealistas.
Num carta escrita a 28 de Maio de 1966 a Jaime Salazar Sampaio dizia: “O livro ofendeu-te? era para isso mesmo em certos passos. Tu depois, nos teus momentos de confissão lúcida, dás-me razão! E estarás a dá-la neste momento, aposto. Proclamas aos quatro ventos: o que eu preciso é de escrever”.
Deixou oito filhos e vários netos e uma obra irregular, dispersa, maldita, mas singular. Obrigado, Pacheco.
Grande abraço, para ti, Fernando.
António Martins Neves
3 Responses to “Breve homenagem a um escritor e libertino”
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- 2 Pingback on Jan 6th, 2008 at 16:22


Sabes, António, sou ainda daqueles que começou a ler o Luiz Pacheco, lá pelo 13, 14 anos, só porque achava que era giro ser diferente do resto da manada, mesmo que fosse só para citar uma frase aqui e ali… sempre puxado pela imagem “maldita” do “tipo”.
Nessa altura interessava-me muito mais a bizarria indexada ao escritor que o conteúdo daquilo que escrevia. Entretanto as coisas foram mudando e a obra foi-se impondo às “lantejoulas”.
Hoje, fazendo um balanço, não sou capaz de dizer quando o Luiz Pacheco me agradou mais: se enquanto tipo estranho que ficava bem entre amigos dizer que se conhecia, se depois, quando conheci, de facto, dentro do possível, o que escreveu. Mas também não interessa.
O que me interessa hoje é reparar que é um “certo” Portugal que morre com o Pacheco. Desaparece de vez. Foi-se!! Luiz Pacheco era assim como um Plano Z, alternativo a este Portugal de hoje, a esta mixórdia de fulanos bem pensantes que não pensam coisa nenhuma mas são excelente a convencer a maralha que pensam, que reflectem muito e bem sobre esta coisa de andar por cá. Quase sempre bem falantes, quase sempre muito à-vontade em público, com palavras certeiras para situações bem definidas. Mas cuja definição não é mais que fruto de pouca e má reflexão, pouca e má capacidade de perceber o que é importante. Essa gente, sejam comentadores de tipo “urbano e despachado”, sejam eles e elas gente com acesso aos esconso cantinho dos eleitos sabe-se lá a troco de quê… ou então, os tipos que são coincidentemente provincianos geograficamente e também na merda que lhes enche a cabeça.
Cheira-me que, por estes dias, não vão faltar espaços onde essa gente de merda vai saltitar de blogue em blogue, de coluna de jornal em coluna de jornal… a falar dos livros do Pacheco exactamente da mesma forma como falaram das bolas-de-berlim-da-sua-reluzente-juventude-atacadas-pela-asae.
Na verdade, Luiz Pacheco, que, na verdade encenava bem estar-se a cagar para esta merda toda, falhou redondamente… dele fica apenas a imagem falseada do bizarro, estranho… maldito.
Não fica o resto. Não fica a ideia de que a vida é coisa pouca para ser apenas um buraco cheio de continuadas esperas pelo dia de amanhã porque-amanhã-é-que-vai-ser… enquanto à nossa volta uns tipos “esverdeados” vão cobrindo as grilhetas com finos óleos para o ferro não magoar a carne mas deixando chagas profundas na alma, criando fórmulas macacas para nos pedirem, sempre com jeitinho, para esticarmos a perna de molde a melhor entrar a grilheta, a melhor ferrar o dorso da maralha com ferro quente antecedido de analgésicos e belas pomadas para melhor sarar a carne queimada.
Na verdade, o crematório de Luiz Pacheco vai igualmente fazer em cinzas o que resta da irreverência de um certo Portugal. Paz à sua alma, ás duas almas…