Etno-Fernando,
no dia em que lês este meu texto passam 17 anos sobre a morte uma das mais distintas, nobres e singulares figuras que Portugal teve o privilégio de acolher. Um etnomusicólogo corso chamado Michel Giacometti que veio cá porque conheceu em França uma portuguesa com quem se casaria. Vieram passar a lua-de-mel a Lisboa, mas a nossa terra, o povo e, mais do que tudo, o seu canto, acabaram por se tornar na sua maior paixão. Não o conheci, mas falei sobre ele com muita gente que teve esse privilégio e escrevi um artigo que o jornal Expresso publicou na sua revista de 29 de Junho de 1996, há 11 anos. Gostava de te deixar este testemunho, porque acho que ficarás feliz por saber que há pessoas assim, que vivem para e pelos outros. E que têm um prazer monumental em viver e uma paixão indiscritível pelo que fazem.
Alguém, como dizia o realizador Alfredo Tropa, para quem “a incomodidade já estava bem”. Os dois fizeram uma série televisiva, premiada internacionalmente, em que Tropa confessou ter um imenso orgulho. Chama-se “Povo que canta” e está arrumada numa prateleira da RTP. Já tentei saber várias vezes se estava nos planos dos responsáveis da televisão pública voltar a exibir aquela “relíquia” de que pude ver alguns episódios durante o trabalho que fiz. Até hoje, nada. Mas para que não reine sempre o esquecimento acerca de quem adopta uma postura de vida nada convencional mas de tal modo rica que abana consciências, aqui te deixo uma parte do que escrevi nessa altura. O resto seguirá na próxima ida do correio.
Um cantado abraço.
António Martins Neves
Michel Giacometti: Trinta anos a gravar o canto do povo
Calcorreou Portugal de lés-a-lés durante 30 anos para gravar o canto do povo. Muitas vezes a pé e de barriga vazia, Michel Giacometti ouviu e registou o melhor da música tradicional portuguesa. De pouco lhe valeu. Ainda hoje quase ninguém conhece o amor pelo canto que encontrou nas nossas gentes. É todo um trabalho herculeo que continua guardado em bobines, sem se saber se alguma vez terá melhor sorte que o esquecimento
nas prateleiras que suportam a memória de um «povo que canta».
Esta é a história de um homem nascido na Córsega que dedicou metade da sua vida a recolher o mais puro do canto português, por que nutriu uma paixão que durou até à morte, mas que nunca lhe rendeu o suficiente para viver. Viu-se obrigado a vender todo o produto do seu trabalho para conseguir terminar os seus dias sem as dificuldades com que sempre trabalhou. «Homem extraordinário» e «generoso», «pessoa rara», «figura ímpar»,«um obstinado» que viveu «sózinho contra o Mundo». Estes são alguns dos adjectivos com que Michel Giacometti é definido por quem conheceu o etnomusicólogo nascido na mesma rua de Napoleão, na capital corsa, Ajaccio, que estudou na Suécia, doutorou-se na Universidade Sorbone, em França, conheceu o escritor argelino Alberto Camus, mas teve como último desejo ficar enterrado na aldeia alentejana de Peroguarda, quando morreu há cinco anos.
Tinha um projecto, que designou «Mediterranée 56», através do qual se propunha investigar as tradições populares de todas as ilhas mediterrânicas, mas após 30 anos a trabalhar em Portugal convenceu-se da impossibilidade de concretizar tal desafio, consciente de que nem cá conseguira ainda atingir os seus objectivos. Gravou centenas de canções tradicionais, reuniu mais de 200 de instrumentos musicais, tirou milhares de fotografias, foi autor de uma série de documentários para a RTP sobre o «Povo que Canta», editou discos…concretizou o mais exaustivo levantamento da cultura musical popular portuguesa.
Foi o acaso que trouxe Giacometti para Portugal. Vivia em Paris, quando conheceu, através de amigos comuns, Isabel Ribeiro, uma enfermeira que conseguiu uma bolsa para ir frequentar um curso de teatro durante três meses na capital francesa. Casaram em Outubro de 1958 e vieram passar a lua-de-mel a Lisboa. Durante os dois meses que estiveram em Portugal, fizeram uma viagem a Trás-os-Montes, onde constatou a riqueza do canto dos camponeses daquela região. Tinha ouvido falar pela primeira vez da província portuguesa num livro do musicólogo norte-americano Kurt Schindler e a sua curiosidade aguçou-se ainda mais quando leu o romanceiro de Leite Vasconcelos. O casal regressou a França, mas voltaria cerca de um ano depois, para ficar. A partir dessa altura, só a morte, a 24 de Novembro de 1990, lhe interromperia o longo trabalho que o levou a atravessar a pé a Serra da Estrela, a andar cinco dias numa traineira na Costa Algarvia, a dormir ao ar livre, a passar semanas inteiras a pão e cebola oferecidos por camponeses ou a ser identificado, em Bragança, como a alma penada de um conde. Apesar da sua formação, que vulgarmente o tornaria num intelectual, Michel Giacometti acabaria por encontrar os seus grandes amigos entre o povo ou nos círculos da oposição que passou a frequentar em Lisboa.
Os primeiros conhecimentos que travou pouco depois de chegar a Portugal foi com o maestro Fernando Lopes-Graça – com quem fez uma dupla inseparável até ao final dos
seus dias – e com a poetisa Natália Correia, de quem chegou a traduzir poemas para francês. De Lopes-Graça, um conhecedor profundo da tradição musical portuguesa, receberia Giacometti as primeiras indicações com que iniciou o seu longo trabalho de prospecção e recolha. Seria ainda através do maestro que conheceria alguns dos que haveriam de ser os seus principais «compagnon de route», elementos do Coro da Academia dos Amadores de Música, dirigido por Lopes-Graça. Com Nuno Duarte, um alentejano da sua idade que migrara para Lisboa, selou uma dessas amizades. Viajavam muito, por Espanha e por Marrocos, nos intervalos das «digressões» pelo país a fazer recolhas. Nuno Duarte conta que andou «muitas dezenas de quilómetro com a “Nagra” (gravador de bobines) às costas». «Viajávamos sempre com pouco dinheiro. Dormíamos onde era mais barato». Destino particularmente do agrado do etnólogo era o Baixo Alentejo, onde os primeiros cantos que ouviu, na aldeia de Peroguarda, o marcariam para sempre, ao ponto de ter decidido ficar enterrado no cemitério local. Virgínia Dias, uma camponesa de 60 anos, ainda se lembra da primeira vez que Giacometti esteve na pequena povoação do concelho de Ferreira do Alentejo, «há mais ou menos 30 anos». «Vinha com o gravador às costas, muito mal encarado, falava um português muito arrastado e acompanhava-o uma menina muito bonita, brasileira», e disse que estava ali porque «lhe tinham dito que se cantava muito bem em Peroguarda». Logo nessa noite houve serão na taberna, mas noutra sala interior para poderem estar as mulheres, que também cantam no grupo local, dado que no Alentejo aqueles locais de convívio são sítios exclusivamente frequentados pelos homens. Terá sido nessa altura que ouviu pela primeira vez «O Menino» e «Solidão», dois temas que haviam de o emocionar sempre que os escutava. «Quantas vezes a gente cantava e as lágrimas corriam-lhe à cara abaixo», recorda-se Virginia Dias. Poetisa popular, a camponesa revela uma profunda admiração por Giacometti, recorrendo a metáforas para o retratar: «Tinha uma alma imensa como a Planície, boa e pura como a terra, bonita como as papoilas e rica como o trigo». E chegou a dedicar-lhe uma das décimas de que é autora, com o mote «Michel, mil vezes obrigado». Dois meses antes de morrer, Giacometti visitou pela última vez Peroguarda e, como era habitual, jantou em casa de Virgínia. «Disse-me que ainda havia de vir para cá morar. Dizia-me aquilo com ar de quem escondia alguma coisa. Só percebi quando morreu e foi enterrado cá. Eu não percebia como é que um senhor que morava em Lisboa queria vir para aqui».
No dia 25 de Novembro de 1990, toda a aldeia de Peroguarda saiu à rua para prestar a última homenagem ao «senhor Michel», como era conhecido entre a população.«Não ficou uma criança em casa», assegura Virginia Dias. Pela «grande honra que todos sentiram» por Giacometti ter optado por ficar sepultado na localidade, o grupo coral que tanto gostava de ouvir decidiu, numa atitude inédita, cantar durante o velório e no enterro as melodias que sempre o comoveram. Mas também os membros do grupo não conseguiram vencer a emoção e, quando o caixão desceu à terra, muitas das vozes embargaram-se
como nunca antes lhes havia acontecido. Quem também não poupa elogios ao etnólogo é o realizador de cinema e televisão Alfredo Tropa, que partilhou com Giacometti o quotidiano durante quase dois anos, período em que prepararam e gravaram a série documental «Povo que Canta». Tropa retrata-o como alguém «relativamente tímido, de trato afável,
tudo sempre estava bem para ele. A incomodidade já estava bem». Manifestamente orgulhoso com o trabalho que produziu com Giacometti, o realizador refere-se ao conjunto dos 37 episódios de «Povo que canta» como «das coisas mais importantes que se fez na RTP nos seus 37 anos de existência». «Chamem-me vaidoso ou não». Para exemplificar a qualidade do trabalho, Alfredo Tropa retira da prateleira do seu gabinete na RTP uma das cassetes vídeo para onde passou os documentários gravados originalmente em película. Mete-a no leitor e surge uma mulher idosa a cantar uma ladainha imperceptível enquanto faz andar com os pés uma enorme roda, com que eleva água do rio para a horta. Chama-se «A Mulher da Roda», ganhou o Grande Prémio do Festival Etnográfico de Florença (Itália), em 1973, e foi recolhido nas margens do Rio Zêzere.
A par da sua actividade etnomusicológica, Michel Giacometti nunca abdicou de uma atitude politica, que cultivou quase sempre discretamente, mesmo depois do 25 de Abril de 1974. Embora nunca tenha sido militante, identificou-se sempre com as posições do PCP e chegou inclusivamente a colaborar na Festa do «Avante!», onde montou um pavilhão de etnografia com o auqueólogo Cláudio Torres. João Honrado, um destacado dirigente comunista que chegou a ser deputado à Assembleia Constituinte em 1975, fazia parte do seu grupo de amigos mais próximos. «Era um elo de ligação entre a oposição por
conhecer todo o país, ter muitos contactos e levantar menos suspeitas junto do regime por ser cidadão estrangeiro», conta Honrado. Poucos anos depois de se fixar em Portugal, chegou a ser preso sob suspeita de ser um «agitador». Foi no 1º de Maio de 1962, quando se associou às grandes manifestações contra o regime que ocorreram naquela data na capital e em vários outros centros operários do país. Foi na Baixa de Lisboa, quando estava com um grupo de amigos, mas a policia nunca suspeitou das suas verdadeiras
intenções, dado que o libertaram no dia seguinte, pedindo-lhe desculpas por o terem julgado um dos «agitadores de barbas» que teriam promovido a jornada contra a ditadura.
Mas a sua atitude politica, que Virginia Dias resume ao afirmar que «era sempre pelos que sofriam» e a quem se confessou como «um homem de minorias», é reconhecida no seu próprio trabalho pelo antropólogo Jorge de Freitas Branco, que com a historiadora Luisa Tiago de Oliveira, publicou em 1993 uma obra em dois volumes («Ao Encontro do Povo») sobre o projecto que Michel Giacometti desenvolveu em 1975, intergrado no Serviço Cívico Estudantil, e a que chamou Plano Trabalho e Cultura. «Era um obstinado, que andou dez anos com um gravador pelo país» e que «via isso como uma atitude politica», considera Freitas Branco. Na sua opinião, «se tivesse as condições ideiais, não teria feito aquele trabalho. Faz parte do seu ideário de sózinho contra o Mundo». Cláudio Torres tem uma opinião idêntica, ao reconhecer que Giacometti «tomou uma opção cívica importante ao mergulhar no mundo dos pequenos, dos esquecidos, colocando-se ao nível deles» e ao situar o seu trabalho na sequência de uma época:«Não o podemos separar de uma geração neo-realista dos anos 50, uma geração romântica que optou pela intransigência, contra todos os atractivos, levando-a de dentes cerrados até ao fim».
Também o actual secretário de Estado da Cultura, o musicólogo Rui Vieira Nery, vê em Giacometti «uma figura exemplar do ponto de vista cívico», dotada de «abnegação e empenho pessoal», mas que «nunca quis tirar dividendos pessoais» da sua actividade.
Na sua última entrevista conhecida, publicada no jornal «Público» de 5 de Agosto de 1990, Giacometti confessava as dificuldades por que passou:«Cheguei a fazer prospecção sem nada na algibeira». «Durante semanas e semanas, eram os camponeses que me davam um bocadinho de pão, com uma cebola». Justifica o auxilio das gentes rurais porque «viviam na miséria» e por saberem que «a vida tem os seus altos e os baixos: “Coitado do senhor, tem fome, e a gente vai-lhe matar a fome”». Noutras altura a situação inverteu-se. «Cheguei a tirar da minha boca pão para dar a camponeses esfomeadaos do Alentejo». Em Trás-os-Montes, viveu uma situação «impressionante» que poderá ajudar a explicar o carinho que nutria pelas gentes mais pobres e desfavorecidas. Num dia de Inverno, com os caminhos cobertos de neve, Giacometti precisava de se deslocar dez quilómetros através da serra. Encontrou um casal com um macho, que lhe emprestou o animal. Só que a besta custava andar, de fraca que estava. Acabou por cair. Sem saber o que fazer, Giacometti colocou-lhe a cabeça no colo, para a aquecer, mas o animal acabou por morrer. Quando regressou e, aflito, contou aos donos, a resposta foi «Deus leva o que lhe pertence». Nem aceitaram que lhes mandasse dinheiro quando regressasse a Lisboa para comprarem outra mula.
João Honrado confirma o carácter generoso e a humildade de Michel Giacometti ao garantir que «era capaz de dar a camisa mas também era capaz de a receber». Crente em valores como amizade ou a solidariedade, o etnólogo sempre surgiu aos olhos de quem melhor o conheceu como um «solitário». Com uma vida sentimental agitada, precisava frequentemente de se isolar. Duarte Nuno Oliveira, livreiro e seu vizinho em Cascais, recorda-se que «passava algumas temporadas, uma, duas semanas, sózinho», ora na casa da Linha do Estoril ora em Albufeira. «Para interpretar e estudar a informação vasta de que dispunha, tinha que passar muitos momentos sózinho», é a justificação que apresenta. Mas a sua personalidade, por vezes contraditória, ia buscar ao universo feminino muita da inspiração e da força que aplicava na sua actividade.«As paixões frequentes eram motivo de viagens, motivavam-no e levavam-no a desenvolver novos projectos. (As mulheres) Davam-lhe alento e tornavam-se suas assistentes nas recolhas», sustenta Duarte Nuno.
Cinco anos após o seu casamento com a primeira mulher, decidiram separar- se, embora nunca se tivessem divorciado e mantivessem «sempre a amizade», como confirma Isabel Ribeiro. Desde aí, nem os que melhor o conheceram sabem precisar quantas companheiras teve. Alfredo Tropa recorda-se que durante os dois anos em que fizeram «Povo que Canta», Giacometti «estava sempre apaixonado e muito afectado por problemas sentimentais». «Era enigmático e com isso exercia um grande fascínio sobre as mulheres». Virgínia Dias confirma de algum modo o «sucesso» que fazia junto das mulheres: «Foi a pessoa mais humana que conheci. Era um homem mais culto que os
demais».
A protecção de que usufruia por ter nacionalidade francesa teria sido um dos motivos que levaram Giacometti a nunca optar pela cidadania portuguesa, apesar de ter chegado a ponderar essa hipótese, ainda antes do fim do regime ditatorial. Conta João Honrado que terá abandonado essa ideia quando lhe exigiram que fizesse um ditado em português. O gesto das autoridades foi entendido por Giacometti como uma afronta e nunca mais ponderou tal hipótese. Tanto mais que «escrevia em português maravilhosamente bem, apesar de sempre ter tido dificuldade em falar a língua», garante Isabel Ribeiro. Giacometti chegou mesmo a fazer campanha política, ao lado de João Honrado, nomeadamente para as terceiras eleições autárquicas, em 1984. A essa altura remonta uma das histórias mais recambolescas que lhe sucederam nas suas viagens pelo país. Foi perto de Santana da Serra, uma aldeia alentejana situada na extremadura com o Algarve, que um dia um camponês lhe ofereceu um porco em troca da sua companheira da altura. Honrado ainda se lembra da justificação dada pelo homem para lhe propôr o «negócio»: «Era forte e nova, boa para trabalhar».
Este episódio seria depois contado por Giacometti em diferentes versões, consoante os destinatários, uma atitude que Nuno Duarte explica por ser «muito imaginativo e até mentiroso. Era tal a fantasia que punha nas histórias, que passavam a ser verdade». A Cláudio Torres, por exemplo, já contou a história da proposta de troca da mulher com outros protagonistas e noutro lugar. Teria sido também na serra alentejana, mas o episódio teria ocorrido após um dia de gravações com uma mulher idosa, que vivia sózinha num monte. No final do dia, a camponesa teria gostado tanto da mulher de Giacometti que lhe propôs trocá-la pelo seu burro – a coisa mais valiosa que possuia – para lhe servir de
companhia e ajudar a atenuar a solidão em que vivia. Numa outra vez foi insultado numa farmácia onde entrou a fumar um cigarro de ervas, numa altura em que decidiu vencer o vício do tabaco. Um homem entrou entretanto no estabelecimento e, ao notar o cheiro do cigarro semelhante ao da marijuana, virou-se para ele com ar indignado:«Parece mentira… Com uma idade dessas e a drogar-se!»
A sua paixão pela cultura portuguesa levava também Giacometti a ter um interesse quase obessessivo por tudo o que fosse antigo. Nuno Duarte recorda que era capaz de deixar de comer para comprar um prato ou outro utensilio ou objecto a que reconhecesse interesse etnográfico. Mas muitas vezes acabava por ter que voltar a vender as peças que ia coleccionando por necessitar de dinheiro. «Tinha uma verdadeira paixão por descobrir coisas em ferros-velhos», considera Isabel Victor, a directora do Museu do Trabalho Michel Giacometti, em Setúbal. Numa das frequentes idas a sucateiros, Giacometti protagonizou uma situação que revela outra das suas facetas: a adoração por cães. Ocorreu nos arredores de Setúbal, e foi testemunhada pela directora do museu, a quem pediu para o acompanhar ao comerciante de velharias. Isabel Victor lembra-se de terem
observado no local uma cadela ferida, que tinha sido atropelada por um automóvel. No dia seguinte, Giacometti telefonou-lhe: «Tive que voltar lá para ir buscar a cadela. Não conseguia dormir a pensar no animal ferido». Mais tarde contou- lhe que tinha «gasto uma pequena fortuna em operações para conseguir salvar o animal». João Honrado confirma mais esta faceta do seu amigo: «Tinha a casa cheia de cães. Havia cães em cima das mesas, dos sofás, das camas». Um dos seus cães preferidos era uma animal corpolento que baptizou de «Nagra», a marca do gravador que constituia o seu principal instrumento. Duarte Nuno Oliveira, que também integrava o grupo de pessoas mais próximas de Giacometti considera que esse cão «era um companheiro do Michel». Em Albufeira, onde
Giacometti comprou uma segunda casa, nos últimos anos de vida, a João da Veiga, um dos maias destacados dirigentes do PCP algarvio, entretanto falecido, «Nagra» era um autêntico cicerone dos locais frequentados pelo dono. «Quando chegava alguém conhecido lá a casa e o Michel não estava, o “Nagra” ia percorrer com ela os locais todos da vila que ele frequentava», assegura Duarte Oliveira. Seria também em Albufeira que o escritor Miguel Torga o conheceu. «Não sei que vento o trouxe de terras estranhas», escreve Torga a 14 de Agosto de 1979 no XIII volume do seu «Diário». Refere-se a Giacometti como alguém que, «afortunadamente, criou raízes» em Portugal. «Falámos largo tempo, ele a discretear e eu a sentir, emocionado, que tinha diante de mim um livro aberto da pátria». Dez anos depois, poucos meses antes de morrer , Giacometti deixa transparecer toda a amargura pela falta de reconhecimento do seu trabalho. «Estou em crise.(…) Penso se tudo isto terá valido a pena. Penso que posso morrer e o material desaparece, que não fui capaz de deixar, não digo discípulos, mas pessoas capazes de continuar o trabalho. Mas nunca tive os meios, mal conseguia sobreviver», desabafa na entrevista ao «Público». A confirmar o esquecimento em que caira, nem mesmo às portas da morte Giacometti conseguiu dos responsáveis politicos outro gesto que não fosse um telegrama para o Hospital de Faro. Nuno Duarte estava à sua cabeceira e não quis deixar de «dar uma oportunidade a Santana Lopes», então secretário de Estado da Cultura, de homenagear alguém que «sempre tinha ignorado». Em vão. O governante limitou-se a «mandar uma mensagem»…


Pessoa fantástica! A ânsia de querer parecer um país moderno e europeu à custa do esquecimento do seu passado e raízes, levou os portugueses a esquecerem esta pessoa magnifica e a ignorarem o seu trabalho. Espero que seja por pouco tempo.