Atento Fernando,
no dia em que te chegarem estas linhas cumprem-se precisamente 40 anos sobre um célebre assalto à delegação do Banco de Portugal na Figueira da Foz. Eram revolucionários que precisavam de dinheiro para acções contra a ditadura de Salazar e decidiram ir buscar o dinheiro onde ele estava. Ocorreu uma dificuldade acrescida. As notas roubadas eram novas e seria fácil detectá-las ao serem usadas. Sabes quem se ofereceu para as branquear, Fernando? Pois, o Banco Ambrosiano, do Vaticano.
Caminhavam milhares de peregrinos para Fátima, no passado dia 12 de Maio, quando a revista que acompanha o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias chegou às bancas. Lá dentro uma discreta entrevista a um homem desconhecido para a maioria dos portugueses: Camilo Mortágua. E Porquê? Porque foi um dos protagonistas do tal assalto e que, a páginas da conversa, faz esta confissão admirável. Depois de terem roubado o dinheiro ao Banco de Portugal, quem se lhes ofereceu para o branquear, trocando os escudos por outras moedas, foi apenas e só o banco ligado ao Vaticano, ao topo da igreja Católica, o Banco Ambrosiano. Mas sem ilusões, Fernando. Trocamos mas queremos metade da “massa” como comissão, disseram os representantes financeiros (indirectos presumo) de “sua santidade”.
Camilo Mortágua, um “lutador” quase desde que nasceu – acrescento eu – pela liberdade, confessa que deviam ter aceite porque trocar o dinheiro foi uma complicação, perderam muito e bastas acções que tinham em mente para atacar a ditadura ficaram por concretizar porque, já nessa altura, quando não há dinheiro, não há ilusões…
 A afirmação de que o banco que alegadamente depende do papa se propôs “lavar” dinheiro de um assalto ao banco de um regime totalitário com quem o Vaticano andava de braço dado passou incólume por aqui. Devem ter fingido que não viram, porque não dei por nenhum desmentido nem nenhum comentário dos cronistas oficiosos da Santa Sé que por aqui abundam. E o facto é importante. Repara, Fernando: a ditadura (ou o ditador Salazar) era abençoada pelo Vaticano através do cardeal Cerejeira, então líder da igreja Católica em Portugal. Mas foi o banco (imagina uma instituição de promoção da fé a tocar negócios e a emprestar dinheiro) dessa mesma igreja que se propôs “branquear” o dinheiro que Mortágua e outros revolucionários inconformados com a afronta daquela criatura sinistra que mandou neste pequeno país mais de 40 anos queriam derrubar pelos meios possíveis: a força.
Um gesto amigável e uma atitude de manifesta (boa) fé, seguramente. “Sou muito teu amigo, mas aqueles rapazes que te roubaram podem significar uma oportunidade de negócio de que não posso abrir mão. Isto da fé não dá de comer a ninguém”, imagino eu o tal Cerejeira a confessar/desabafar com Salazar. E lá continuaram amigos para sempre e o Vaticano incólume e as pessoas a irem a pé a Fátima e o Salazar a ser votado na estação pública de televisão (RTP) como “O melhor português”. Queres maior hipocrisia do que esta, Fernando? Desenrasca-te, porque eu não consigo encontrá-la!

Um laico e pobre abraço.

António Martins Neves


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