Crítico Fernando,

aqui te falara nos meus primórdios de “cinéfilo”, prazer de que tenho andado bem mais arredado. Volto quando posso, mas tem sido pouco. O que não te dissera é que quando faltava melhor, aos domingos à tarde não rejeitava um filme indiano. É verdade. Aqueles dramalhões que embeveciam mulheres e crianças e ainda mais se fossem ciganos, que não perdiam um. Lembrei-me disso hoje quando fui ver o filme que ganhou no domingo oito “óscares” nos 12 ou 13 possíveis.

A história não difere muito daquelas de há 30 anos, rodadas em Bombaím, o local do mundo onde se produzem mais filmes. Esta passa-se lá até, embora seja produzida pela máquina norte-americana. Diria que é um filme como os outros, ao jeito da máquina de Hollywood, com final feliz, onde os pobres e desterrados acabam a vencer na vida, claro que não a trabalhar – ninguém enriquece desse modo, como sabes – mas por sorte e graças à santa televisão mais aos seus concursos. Uma transposição para os dias de hoje da felicidade. Juntos (e ricos) para sempre! Nada de especial e muito menos obra que tenha mudado o meu franzir de sobrancelha com os falados galardões que os norte-americanos atribuem (quase sempre) aos seus prórios filmes. Além da modernização do velho esquema de ganhar milhões, aconteceu que desta vez não vi a fita em nenhuma cadeira de pau nem nas estofadas da primeira plateia. Antes no mais novo cinema de Lisboa, com o pomposo nome de Cinema City Classic Alvalade. Mas testemunhei o que nunca vira em nehum outra sala, desde que me lebro de entrar delas, para aí desde há uns 36 ou 37 anos. Quando entrei no espaço, pequeno mas com bom ar, a remeter para o clássico, percebi que havia algo de anormal com dois espectadores. Acabei por entender que teriam sido vendidos bilhetes a mais e uma senhora, presumo que responsável pelo espaço, debatia-se com a difícil tarefa de convencer alguém que tinha adquirido o direito de ver o filme normalmente sentado na sala, se confrontava agora com essa impossibilidade. Não entendi se lhe tinham sido colocadas alternativas. Só ouvi claramente a tal senhora dizer em bom som:”Vou buscar então duas cadeiras”. Confesso agora aqui que custei a suster a gargalhada. A espectadora foi varrida por um raio e mostrou-se logo zelosa da coluna: “Veja lá, não traga dois bancos”. Não trouxe. Foram duas cadeiras do espaço de cafetaria que antecede as salas. Com um estofo de tecido com rameados e as costas em madeira. E foi assim que assistiram, do “balcão”, durante quase duas horas, ao “Quem quer ser Bilionário”!

Um cinéfilo abraço.

António Martins Neves


1 Response to “Bilionário visto do “balcão””

  1. 1 primo ze

    Caro Antonio

    Se o Gerente da sala fosse o saudoso Pato, isso nunca teria acontecido,

    Um Abraço

    Primo Zé