Barraca armada

Elaborado Fernando,
tu a falares-me de “naperons” e eu a imaginar a tenda que Muammar Kadafi vai montar aqui nos arredores de Lisboa, repleta deles. Com todos os desenhos e todas as linhas possíveis e imaginárias. Na tenda que ele vai trazer para a cimeira União Europeia-África, porque, por razões, que não soube ainda explicar, não aceita ficar num quarto de hotel como o comum dos mortais e os seus ossos só descansam numa tenda de beduíno do deserto. Deve ter muitos “naperons” nos plasmas da tenda, quase que aposto…
Quando alguém convida um suposto amigo e ele aparece com uma tenda de campismo a dizer que recusa dormir na nossa casa e prefere o quintal para armar a barraca e dormir num saco-cama, como reagirias, Fernando? Mal, seguramente. Eu mandava-o de volta e riscava-o da lista de amigos onde só podia ter estado por um grande equívoco.
Na política internacional não é nada assim: há umas criaturas exóticas que se acham no direito de impor as mais destravadas extravagâncias a quem os convida, e quem os convida acha que tem que aceitar e aceita quase tudo, como se fossem artistas pop daqueles que tão rios de dinheiro a ganhar mas precisam ter no camarim flores vindas dos confins da Polinésia ou o whisky da destilaria “x” da Escócia e mais a água “y” para misturar. Só que o ditador líbio não sabe cantar, que se conheça, nem o “atirei o pau ao gato”, já matou muita gente pela simples razão de não concordarem com ele e vem por aí fora como um legítimo chefe de Estado para ser recebido num regime democrático como se considera o nosso. Elegante como só os ditadores sabem ser, recusa outro lugar para dormir que não seja uma tenda, porque ele diz que é um beduíno do deserto e uma suite de cinco estrelas deve estar cheia de correntes de ar e Sexa terá uma saúde muito débil, estragada com os sacrifícios extremos impostos pelas funções governativas. E com a tenda vem o comer, a criadagem, os vassalos, os seguranças…Uma miséria, como já ouvi dizer noutras circunstâncias. Mas o certo é que o Governo português teve que arranjar um local para o homem armar a barraca: foi no Forte de S. Julião da Barra, que tem tudo a ver com o deserto, ali entalado entre a Marginal, umas das estradas mais perigosas da Europa, eo mar, frente ao forte do Bugio. Presumo que tenha sido imposição para vir. Imagina a importância que ele dá ao encontro… Depois segue em digressão pela Europa, já anunciou. Ele e a tenda. Este é o presidente (julgo ser assim que se designa) de um país do qual agentes secretos fizeram explodir um avião com um atentado sobre a Escócia em que morreram quase 200 pessoas (cito de memória) e que nos últimos anos reteve na cadeia enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de propagarem o vírus da Sida entre crianças líbias, convêm não esquecer. Tudo normal. O caricato disto tudo é que o que o primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, recusa vir à cimeira entre a União Europeia e os 54 países de África em Lisboa, a 8 e 9 de Dezembro, porque há um outro protótipo de ditador, curiosamente eleito – parece que de forma que deve pouco à democracia – chamado Robert Mugabe, que lidera o Zimbabué. Teria o inglês razão se agisse de igual modo com todos os tiranos que vão passar por Lisboa. E são muitos. A começar por Kadafi, cujos capangas mataram, ele próprio reconheceu, dezenas e dezenas de inocentes que viajavam num avião que explodiu sobre o país de Brown. Mas como os políticos têm memória curta, ou parecem, Kadafi é um porreiraço, um pouco excêntrico até, que falhou nas suas aspirações imperialistas em África e agora se converteu à “real politik” da União Europeia. Com “estadistas” deste calibre, estás mesmo a ver o que vai dar a cimeira. Nem a agenda se sabe, Fernando. Até agora Mugabe monopoliza. Se cada um dos ditadores que vier usasse da palavra meia-hora, imagina as conclusões…Parece que mais nenhum trás tenda, mas apenas porque são mais discretos. O certo é que só não vê quem não quer…De qualquer modo, para consumo externo (do povo e do mundo sentado) posso-te já adiantar que vai ser um sucesso. Há-de vir de lá mais um “porreiro, pá!” para se ouvir com cara de pau. E acaba aí a história de uma reunião. A miséria humana, essa, continuará a imperar pelo mundo. Com o abano de cabeça europeu.

Um abraço de alerta.

António Martins Neves