Banhos

Higiénico Fernando,
de banhos ou da falta deles também tenho uma colecção, que será seguramente mais fácil de organizar do que a tua. E não era por falta de água, mas por falta de sítio para os tomar e evitar ficar mais sujo do que já se estava. Lembraste das baratas en Díli? Era com a água onde elas morriam que comecei por me lavar na capital timorense, quando lá cheguei.
Era preciso ir buscar uns baldes de água e depois fazer um equilíbrio circense numas pedras dentro de uma espécie de barraca para conseguir molhar o corpo, ensaboá-lo, enxaguá-lo e sair de lá menos sujo do que se tinha entrado. Na casa de banho tudo era pior. Estava semi-destruída e…vou poupar-te a pormenores. O dilema era grande. Andar sujo e suado vários dias ou passar o corpo por uma água conspurcada num local nada recomendado? Confesso que optei muitas vezes pela primeira hipótese. Era menos arriscado para a saúde. Naquele caldeirão de humidade, o efeito de um banho dura apenas enquanto se toma. Quando migrei para outro local, umas centenas de metros de distância, tudo se alterou. Ou melhor, o banho passou a ser possível com menos sacrifício, uma espécie quase de jacuzzi. Ombreava com a sensação de poder comer arroz branco ao pequeno almoço, que me sabia a acepipe por desconhecer quando viria algo mais a descer-me pelo estreito a não ser água. Havia um balde naquele paralelepípedo ao alto que os indonésios deixaram de herança e a que chamava casa de banho. Enchia-se o caldeirão de água de uma torneira e depois havia uma espécie de cacifre para a despejar pelo corpo abaixo. Lá se ganhava algum conforto no final de um dia em que se começava a suar antes da sete da manhã e nunca mais se acabava, nem a dormir debaixo daquela maldita rede que evitava o massacre dos mosquitos. Do resto tu sabes. Passou a ser possível tomar duche e essas modernices todas.
Mas tudo isto é menos do que uma história que ouvi uma vez ao actual presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta. O território ainda era uma colónia portuguesa e o agora chefe de Estado, pouco mais que um adolescente já apostado na política,  um dia viajou para o lado indonésio da ilha de Timor, para a sua capital, Kupang.
Estávamos no início dos anos 70 e por aquelas bandas os conceitos hoteleiros eram muito relativos. Os banhos, por exemplo. Contou Ramos-Horta que na “unidade” onde estava alojado o banho era colectivo e cumpria-se num tanque de cimento onde cabia uma pessoa de cada vez. A água só era mudada depois de todos tomarem banho. Conclusão: o último lavava-se no que os anteriores tinham deixado. Não será difícil imaginar que quando todos os hóspedes lá passavaem  a crosta que emergia da água dava para cortar com uma faca.
Para remediar restava a solução porque Ramos-Horta contou ter optado: ser o primeiro a ir tomar banho. Nos dias que lá esteve levantou-se sempre antes das cinco da manhã.

Um limpo abraço.
António Martins Neves