Bacalhau basta!

Clarividente Fernando,

estou baralhado e venho por este meio pedir a tua ajuda. Nós, portugueses, fomos sobejamente acusados de estar a contribuir para a extinção de uma espécie de peixe que faz as delícias de quase todos. Nos meus mais íntimos momentos de reflexão preparei-me para nunca mais ver no prato uma daquelas deliciosas postas. Afinal, não é nada assim, Fernando. Há dias passou por aqui o primeiro-ministro norueguês e adivinha o que se reteve da visita: a promoção do dito bacalhau que nós ameaçamos severamente…
Tenho à minha frente uma foto do chefe do governo norueguês, curiosamente um dos países mais evoluídos e onde se vive melhor á face da terra. Chama-se Jens Stoltenberg  e fez um número admirável. Numa deslocação a Lisboa passou pelo Cais do Sodré, em Lisboa, onde se compra o melhor bacalhau do mundo, entrou numa das boas mercearias das zonas e vá de posar. Saiu um nítido loiro agarrado a um belo bacalhau e mais uns daqueles excelentes peixes secos de lhe fazer inveja no enquadramento.
Posto isto, fiquei a saber, Fernando – e quero repartir este momento solene contigo – que não vamos ficar privados daquele belo bacalhau com grão, batatas, couve-flôr,assado, frito, em pataniscas, crú…seja lá como fôr. Aquela coisa mal cheirosa que quase só nós aqui neste canto da Europa consumimos (e adoramos quase todos) vai continuar a ser laço de união com a Noruega. Já deixámos de ser os maus que comem o que não devem e que colocam a sobrevivência de uma espécie em causa? Não sei. Verdade é que o homem fez questão de se fazer fotografar junto de uns valentes bacalhaus e disse que aquele peixe, que abunda lá nas geladas águas norueguesas, é assim uma espécie de ponte com esta terra de bacalhoeiros.
Se ele o diz, nós ouvimos. O futuro dirá, mas o governante de Oslo aliviou-me desta angústia que andava aqui a descer e subir na garganta perante a perspectiva de não mais ver uma daquelas lascas brancas banhadas em azeite no meu prato. Os ambientalistas, que eu respeito e oiço, dizem que nós, portugueses, os únicos consumidores de bacalhau seco e mal cheiroso do mundo colocamos a sobrevivência da espécie em causa. A Noruega, em cujas águas há as maiores reservas da espécie no mundo incentivam-nos ao consumo do produto. Em que ficamos? Não sei, Fernando. Apenas te posso garantir que não vou abrir mão de me deliciar com aquele peixe gordo e saboroso, ainda por cima carregado de história e significado para este país de antigos marinheiros que iam quase ao fim do mundo para apanhar uma espécie que, na altura, ninguém valorizava.Morremos e vivemos pelo bacalhau.
Todos nós precisamos dos pequenos prazeres e em Portugal tirar o bacalhau da mesa seria assim como proibir os muçulmanos de comer cordeiro.  Parece-me exagerado, Fernando. Façam lá os estudos e sejam sérios na postura. Dez milhões de almas é que vão acabar com uma espécie abundante nos mares gelados do Atlântico? Sim ou não? Deixem lá o factor económico de lado, porque neste caso de bacalhau se trata. E bacalhau basta, Fernando!

Um salgado abraço.

António Martins Neves


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