Aventura, desconhecido, coisas novas

Viajante Fernando,
recordas-te de te ter falado daquele casal que atravessou meio mundo de bicicleta, indo da Europa até à Ásia em quatro anos e percorrendo 38 mil quilómetros, quase os cerca de 40 mil que tem de perímetro a Terra no Equador? Como prometera, volto à epopeia. Fiquei cá com a pulga e consegui a “morada” deles. Escrevi-lhes, e muito amavelmente esclareceram-me algumas das dúvidas que continuava a alimentar depois de ler o livro onde relatam a odisseia. E sabes que mais? Se não lhes tivessem nascido dois filhos, a esta hora andariam a pedalar devagar pelo mundo…
Primeiro, vou já dizer-te qual a “receita” de João e Valérie para andarem assim pelo mundo, em cima de duas rodas:  “É preciso gostar muito de aventura, do desconhecido, de ver e viver coisas novas”. “O mais difícil é pôr o pé na estrada” imagina!  “Tudo o resto, dormir o que calha, comer o que aparece, pedalar, passa a ser o ‘normal’ dia-a-dia” e conseguir “pôr os hábitos de lado”: “Não ter medo de ficar muitos dias sem tomar banho, não ter café depois das refeições, comer sopa ao pequeno almoço”. Quis também saber o que lhes vem primeiro à cabeça quando recordam os quase 1500 dias de aventura. Dois sonhos antigos, dizem-me. Ela a chegada a Lassa, a capital do Tibete, ele a viagem que fizeram num navio cargueiro entre o Bangladesh e Singapura.
Mas como andar assim com a casa em cima de uma bicicleta causa os seus amargos de boca, o português e a helvética também me confessaram quais os momentos mais aflitivos. O pior de Valérie ocorreu-lhe na China, quando ficaram numa pensão sem aquecimento e a temperatura era de zero graus. Pediram algo com que se pudessem aquecer e  levaram-lhes um balde com carvão. Deitaram-lhe fogo para fazer brasas e debruçaram-se sobre elas, única forma de sentirem o calor. Já imaginas o que aconteceu. Os gazes tóxicos libertados pela combustão do carvão fizeram-na desmaiar, mas quando João pediu socorro apareceram cinco chineses aflitos que resolveram a questão tirando o balde do quarto. “Tive a sensação que ia morrer”, confessa agora.
Foi mera coincidência a má memória com que João ficou quando chegou a Diu, um dos territórios indianos administrados por Portugal até a Índia nos ter expulsado de lá na década de 50 do século passado. Uma dor associada a uma mancha vermelha numa perna teimavam em atormentá-lo já havia um mês, de tal modo que pensava já que teria de voltar para casa. “Esse pensamento deixava-me aterrorizado”, contou-me ele. Afinal, era só líquido linfático infectado que desapareceu com uns vulgares antibióticos.
Quis também saber que país, povo, civilização mais os tinha fascinado: “Assim, de repente, a civilização indiana. Um mundo completamente à parte. Pela diversidade, pelo misticismo, pela junção de crenças, de etnias, de povos, de línguas etc. A variadade de acontecimentos singulares numa cidade é fascinante, como por exemplo em Nova Deli, ver macacos a passear, ou vacas a comerem plásticos na rua, manadas de búfalos a irem sozinhos para casa, dentistas na esquina de um prédio, etc. O facto de muitos animais serem deuses e serem tratados como tal, elefantes no meio de avenidas montados por um homem. É uma lista sem fim, um filme autêntico do qual não conseguimos despregar os olhos” a que acrescantam ainda “as minorias no montanhoso noroeste do Vietnam. Em cada vale que passávamos víamos uma minoria diferente com vestidos originais” e “os tibetanos pela crença ardente em Buda e no seu Dalai Lama”.
Ciclista desencartado que sou, também quis matar a curiosidade sobre as máquinas: “Consumimos 15 pneus. No fim só o quadro era o mesmo o resto tinha sido tudo mudado. Em Singapura fomos à  fábrica de Shimano que, ao ver o que andávamos a fazer, ofereceu-nos material novo e montou-o nas nossas bicicletas. Furos tivemos mais de 100, muitos na China pela falta de bons pneus. Em Macau conhecemos um português, Luis Filipe, que nos tranformou a bicicleta com bom material e me deu uma grande lição de mecânica”. E já agora saber a ideia que tinham ficado sobre a forma de deslocação escolhida: “Para nós é um meio de transporte. Mas, se não tivesse filhos e voltássemos à estrada, não hesitávamos em escolher outra vez a bicicleta como meio de transporte. Par nós é um meio não “o”, mas é o melhor. Indo devagar, “vai rápido” e muito longe sem despesa de energia. É ecológico e quer queiramos quer não deixa-nos numa forma física excelente. Pela minha experiência e conhecimento de outros ciclistas viajantes, viajar de bicicleta, é, simplesmente viciante. Afinal, quase que poderia dizer que é “o” meio de transporte!”.
Saudades? Pelos vistos, muitas! “Continuamos a andar frequentemente de bicicleta, continua a fazer parte do nosso dia a dia e das nossas vidas.”
E agora senta-te, Fernando. O que disseram antes e escreveram no livro fica tudo ainda mais claro com o que vem a seguir. “Por enquanto não temos nenhuma viagem programada, temos muitos sonhos, mas tanbém temos dois filhos que adoramos e com os quais fizemos uma pequena viagem de um mês a Marrocos”. Estamos entendidos!.

Um abraço cheio de pedalada.
António Martins Neves