As mulheres dos senhores ministros
Publicado por António Martins Neves 12 Março 2008 em Portugal.
Atento Fernando,
acerca da capacidade de sofrer das pessoas, lembro-me que aqui há uns anos, era primeiro-ministro António Guterres, houve uma carga policial contra uns operários da Marinha Grande. Gente a refugiar-se na Câmara local e os guardas da GNR, irados como parecem ficar naquelas situações a espancarem tudo o que lhe aparecia à frente. Umas máquinas de dar porrada, até em quem estava a lutar para não perder o emprego na empresa vidreira, cujo nome não arrisco por não ter a certeza. Um “espectáculo” sempre lastimável num regime que se rege por normas democráticas. Acontece que nessa altura o ministro das polícias era Alberto Costa, agora titular da pasta da Justiça. E correu, não sei se verdade, mas pelo menos verosímil, que o ministro, quando chegou nesse dia a casa, ouviu da mulher: “Foi para isto que nós andámos a apanhar pancada antes do 25 de Abril?”
Se não corresponde à realidade, faz sentido. Alberto Costa e a mulher integraram movimentos estudantis que eram severamente reprimidos pela ditadura de Oliveira Salazar. Pelo menos uma anedota bem sustentada foi, seguramente, a estória que correu.
Costa lá ia dizendo que aquele não era o seu Ministério, daqui e dali…mas da responsabilidade não se livrou. Deixou que os seus subordinados fizessem a outros o que ele tanto detestou que lhe acontecesse. Lutar por direitos básicos, tudo agravado por na altura, na Marinha Grande, tudo acontecer com um regime livre implantado. Adiante.
Tudo isto nem viria na História se não fosse um recém afastado ministro, para se candidatar (e conquistar) a Câmara de Lisboa, número dois na hierarquia socialista que governa o país, por sinal também de apelido Costa, visse a mulher, a educadora de infância Fernanda Tadeu, na manifestação que terá reunido muito perto de 100 mil docentes em Lisboa no passado sábado a gritarem contra o Governo do PS.
Se no caso anterior, a conversa, a ter acontecido, ficou entre as quatro paredes da família, agora a mulher de António Costa mostrou publicamente estar contra a política do partido em que o marido é uma espécie de “vice”. E tudo é claro porque as fotografias publicadas no Diário de Notícias, logo na capa, não deixam margem para dúvidas.
O balanço de tudo isto não pode ser mais positivo: as pessoas pensam e agem de acordo com os seus princípios e não em função do que pensa aquele com quem partilham a almofada, no caso altos responsáveis do país. Que faça escola esta atitude. Pode parecer irrelevante, mas é um sinal de maturidade por parte das pessoas com responsabilidades, actualmente, a dirigir o país. Não devia ser notado? Se calhar não, mas nós, nesta matéria, andamos umas décadas atrasados. Há outra leitura possível: como em política o que parece é, a mulher de António Costa foi à manifestação porque o marido não teve coragem de ir…Não me admirava nada que assim fosse, porque os políticos, para serem “coerentes”, são capazes de tudo…
Um descomprometido abraço.
António Martins Neves



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