Pândego Fernando,

não resisto a contar-te a história da revelação do génio cómico de um ministro do Governo português: chama-se Mário Lino, tem uma das mais importantes pastas governamentais aqui, dizem que é unha com carne com o primeiro-ministro e há dias conseguiu abrir os telejornais todos quando discursou depois de um almoço para que foi convidado. Disse nada mais nada menos que a Margem sul do Tejo – que inclui só cidades como Almada, Seixal, Moita, Montijo, Barreiro, Alcochete, Palmela e Setúbal – é um deserto. Assim mesmo, Fernando!
Mas a veia cómica tinha começado a revelar-se antes, quando disse que defendia o aeroporto na margem Norte do Tejo, na Ota, puxando pelos galões de engenheiro inscrito na respectiva Ordem, o que foi entendido como uma graçola ao facto de José Sócrates, o chefe do Governo a que pertence, não ter esse pergaminho e se manterem as dúvidas sobre se a sua licenciatura em engenharia cumpre a legislação sobre a dita matéria.
No almoço que refiro, Mário Lino, falou do deserto de uma forma que qualquer cabo-verdianopresente o teria ficado a odiar para sempre, já para não trazer os tuaregues à liça.  Mas fê-lo com uma convicção que deu uma enorme vontade de rir, porque parecia acreditar no que lhe saía da boca. E a aridez que vê naquela região onde os prédios são mais que cogumelos serviu para sustentar a grande paixão que lhe tem assolapado a alma: justificar a construção de um novo aeroporto na margem Norte do Tejo, na Ota, concelho de Alenquer. A piadola acabou por o obrigar a ir ao Parlamento falar desse tal “deserto” que vê a sul do Tejo. o que acontecerá ainda esta semana. A constatação do governante levou até a que alguém tenha já desenhado um novo mapa de Portugal. A Sul do Tejo, caracteriza-se por deserto puro, dunas com fartura, raras palmeiras. Depois há Lisboa, a Ota, e o resto, para Norte, é “paisagem”.
E o deserto porquê? Justifica Mário Lino, um homem afável que conheci profissionalmente quando ele se preparava para abandonar o Partido Comunista Português onde militou muitos anos, porque naquela região – que não disse onde terminava – não há escolas, hospitais, hotéis…nada! Um verdadeiro deserto, apesar da floresta abundante, das centenas de milhares de pessoas, de ter a maior reserva de água subterrânea da Península Ibérica, como contraditoriamente reconheceu durante o tal divertido discurso.
As larachas não pararam mais, os pedidos de demissão chovem e o ministro deu, na realidade, vários passos atrás no seu espinhoso caminho de defesa do novo aeroporto para a  Ota. É que lá, em Alenquer, ninguém encontra um “deserto” diferente do que Lino vê do outro lado do rio. Quem estivesse distraído admitiria que estamos perante uma velha reivindicação de uma terra cosmopolita que se prepara para mudar o nome para Las Otas, ter uma pista internacional para receber os habituais milhões de visitantes anuais e passar a viver frenéticamente 24 horas por dia, à moda da Califórnia (ops, isso não pode ser que abunda por lá o deserto também).
Para uma aldeia tamanha (ou será cidade?) é um constrangimento que só lá sechegue de carro. Sim, porque aquilo não é nenhum deserto, insinuou o ministro,  divertido, depois do almoço. Termino dizendo que não vais ter Mário Lino por aí,seguramente, nos próximos tempos, Fernando. Provavelmente vai ter que atravessar outro deserto para saber do que se trata realmente e por aí há muitos hotéis, escolas e até hospitais. Prevejo que a opção será uma caminhada até à Ota…

Um anedótico abraço.

António Martins Neves


2 Responses to “As miragens de Lino”

  1. 1 mjoão

    A parte que eu gostei mais foi a da tentativa de justificação – no telejornal da RTPi do mesmo dia, às 20:00 h – em que o dito ministro disse:
    - “Não compreendo porquê tantas críticas… falei para uma audiência especializada no Clube de Empresários e fui muito aplaudido. No fim, até, fui muito cumprimentado.”
    Cego é aquele que não quer ver…né?
    Quanto aos excertos da declaração “sou engenheiro inscrito an Ordem dos Engenheiros”, Mário Lino diz que foram descontextualizadas … estava a falar perante o presidente da Ordem dos Engenheiros, noutra ocasião, noutro dia.
    Cá para mim, o senhor precisa é de umas semanas nas termas, ou um bilhete de ida para esperar o próximo Lisboa/ Dakar com os homens azuis no deserto…sim, sim, os tuaregues…
    Johnny

  2. 2 Antarqui Aypate

    Uncordial saludo. Enhorabuena.Pepe