As iscas, o Lobo Antunes e a paternidade
Publicado por António Martins Neves 6 Julho 2007 em Portugal.
Sadio Fernando,
antes de mais quero crer que estas singelas linhas não te vão encontrar doente e estiraçado, mas antes já de cabeça levantada, pronto para outro casamento. É isso que a vida nos ensina: enfrentar as situações com as “armas” que reunimos anteriormente, para que tudo decorra sem sobressaltos. Pensava eu nisto quando desfolhava rapidamente as páginas que me levavam à crónica semanal do escritor António Lobo Antunes. Corro por ler aquele naco de prosa. É meia revista Visão para mim.
Hoje aconteceu-me começar a desfrutar daquele prazer enquanto aguardava que me colocassem à frente umas iscas à portuguesa. Isso mesmo! Um prato singelo, mas que me enche as medidas, com batata cozida, um ramo de salsa, envinagradas quanto baste.
Uma garfada aqui, um olhar na revista, o escritor trouxe-me à tona a faculdade de ser pai. Fala do que perdeu por não ter visto a filha mais velha nascer, nem nos meses seguintes, por causa da guerra colonial. Ele e mais e mais uns milhares padeceram desse mal, para desgraça de todos nós.
Quero deixar-te claro que não sou leitor dos livros do António Lobo Antunes. Verdade que não os li todos, mas os últimos não me seduziram nada. Acho que um leigo em literatura poderá dizer que cada uma daquelas obras são crónicas que se esticam até ao infinito sem que se partam. Uma espécie de pastilha que nunca quebra, por mais que se alongue. Como ele diz, é a mão a tomar as rédeas da prosa. Deixa ir e acaba naquilo que é adorado por muita gente, seguido e imitado por reconhecidos escritores da nossa praça, mas que a mim não me seduz. Já as crónicas são outra conversa, Fernando.
Ali fica claro o que distingue os génios das pessoas vulgares. A capacidade de observar e de imaginar, longe do alcance do comum dos mortais, tem ali o expoente máximo. Um olhar por uma janela garante-te um texto lindíssimo, comovente, deprimente, alegre, triste, carregado de emoções e contradições… literatura ao seu melhor nível.
Nesta semana ele tocou num ponto onde também tenho algo a dizer. Ser pai. Claro que não estive, felizmente, na guerra colonial, acompanhei a gravidez de onde nasceu o meu filho, levei a mãe à maternidade…Só que há ali algo que me toca, apesar de ter sido poupado ao drama de saber no meio da selva que tinha sido pai e ter que esperar vários meses para ver e tocar o meu descendente, cheirá-lo, ouvir-lhe o choro, aconchegá-lo.
Eu tive muito mais sorte que o António Lobo Antunes. E quero agradecer-lhe, porque para eu ter estado com o meu filho desde que ele deitou a cabeça de fora foi necessário que muitos milhares como ele, lá no dito Ultramar, soubessem que eram pais quase por telégrafo, no meio do mato, com mais garantias de levarem com um morteiro do que receberem o desejado telefonema. A angústia levada ao extremo, tento eu imaginar.
Simplifico tudo dizendo que quando o meu filho anunciou que ia nascer achei que as dores da mãe eram devidas a umas ameixas amarelas que comera em excesso. Que, pelo sim, pelo não – análise minha na altura – devíamos ir ver que dores eram aquelas.
Percebi verdadeiramente que ia ser pai num curto espaço de tempo, quando parei o carro num semáforo, a caminho da maternidade, e a mãe me sugeriu: “Tens mesmo que parar no sinal vermelho?”. Liguei os quatro piscas e segui. Passadas poucas horas estava com ele nos braços, antes de mais alguém. Acho que isso fortaleceu a nossa relação. Ainda hoje gostamos de dar abraços: de homem para homem. E beijos também. Mas quando jantamos não me apetece meter os seus pés na boca, o Lobo Antunes que me entenda. Isso já fiz o suficiente. E cheirei vezes sem conta a cabeça com aquele odor que ainda hoje retenho e me parece ser o melhor do mundo. Só ainda não repartimos, pai e filho, um prato de iscas, mas já faltou mais.
Um animado abraço.
António Martins Neves



o Francisco há dias dizia-me que agora tem a certeza de qual o fruto que mais aprecia, a ameixa…coincidência?…ou talvez não.
Por razões óbvias, adorei este texto!