As árvores da minha vida
Publicado por António Martins Neves 21 Abril 2007 em Portugal.Silvículo Fernando,
gosto muito de árvores, já deves ter percebido. Não é nenhuma paixão assolapada, mas não fico indiferente quando no meu caminho se cruza um belo exemplar de plátano, vejo uma majestosa azinheira no meio da planície, descubro uma nespereira carregada. Até mesmo uma daquelas oliveiras milenares me prende o olhar. Que queres? Temos os amores das nossas vidas, os locais, as praias, as férias, as viagens, porque não poderei ter as árvores da minha vida? E algumas aparentam alma até.
Se pensares bem, Fernando, dão-nos quase tudo e pedem-nos quase nada em troca, a grande maioria. Purificam-nos o ar para conseguir-mos continuar a viver, dão-nos frutos, sombra, abrigo, lenha e mais uma infinidade de coisas e só nos exigem que não as tratemos mal. O que, bem visto, não acontece. Pelo menos nos tempos que correm. Salvo num jardim ou noutro. Estão quase remetidas para um papel histórico, embora a maioria das pessoas desconheça que sem elas não podemos passar.
Tive várias árvores que marcaram a minha infância! Isto agora anda mais fraco. Muita cidade, pouca árvore, mas não me queixo, apesar de tudo. Na altura dos calções é que sim, eram muitas e boas. Lembro-me de uma amendoeira onde tive o meu primeiro baloiço, que depois passou para uma grossa oliveira, ramuda. Eram firmes e aguentavam aquele vai-e-vêm sem ponta de esforço. Cresci mais um pouco e recordo-me de uma pequena pereira que entrou na minha vida. Era frágil, baixa, poucos ramos, acho que quase não dava fruta, mas permitia-me subir aí a um metro do chão e eu achava que dali de cima via o mundo com outros olhos. Era olhar em redor e o universo abria-se num horizonte largo, a perder de vista. Imaginava eu (e bem) que para nascente, lá ao fundo, onde o céu acabava, era Espanha, e depois mais para Norte ou mais para Sul ficavam os poucos países de cujos nomes eu ouvira falar até essa altura. Fazia um mapa na cabeça. Teria os meus cinco, seis anos. Se me perguntassem qual a árvore que me abriu os olhos para o mundo, teria que reconhecer ter sido aquela pereira enfezada, um enxerto muito mal sucedido onde não me recordo de lhe ver um fruto e incapaz de aguentar um encosto de um bezerro com comichão no lombo. Mas tinha um perfil que me permitia ficar ali a olhar para longe, seguro, mãos e pés bem apoiados. Uma espécie de farol sem mar, um trono a jeito onde não me podia sentar.
Perto havia três testemunhas que deviam não entender aquele fraquinho pela pereira. Um eucalipto solitário num alto de uma pequena elevação, um pinheiro manso que lá ia cumprindo a sua parte em pinhões e uma azinheira já entradota que dava as bolotas mais doces da região. Mas nenhum deles me prendia a atenção sem ser sazonalmente, pelos frutos.
No eucalipto, por esta lógica, nem reparava. Era de tal forma alto e esguio que nem sombra dava. Só prendia a atenção nos dias de temporal. Era uma espécie de medidor de rajadas de vento. Quando a tempestade era mais brava lá se dobrava ele pelo meio, para depois retomar aquele ar mudo e quedo de quem se ergue sem desamarrotar o fato.
Noutros locais não muito distantes, mas fora do alcance da vista daquele universo, outras três árvores deixaram-me marcas na memória. Um seromenheiro (onde haverá disso, Fernando?) com cujos pequenos frutos me deliciava, um pereiro enorme que dava uns peros grandes e doces como nunca mais comi assim, debaixo da árvore sem os lavar nem limpar, e uma nespereira que vivia escondida numa pedreira abandonada mas que produzia umas nêsperas tão doces que eram disputadas quase uma a uma com os melros.
Depois…Bem, depois essas árvores, naturalmente, continuaram lá e eu levantei raízes.
Quase sempre vivi perto de árvores, mais por coincidência do que por opção, mas tenho tido muitas vezes uns seres vegetais com personalidade arbórea por perto. Recordo, nos últimos anos, uma árvore que tapava a vista da minha varanda, mas cujo nome nunca me preocupou, e um plátano ali perto, esse sim, uma árvore escrita com maiúsculas: a bater-se com os prédios todos à volta, incapazes de acompanhar aquele fulgor da natureza, assim mais alto que a tenda de um circo, e com um raio de acção onde se encontrava (e encontra ainda) o retrato da vida. De dia, à noite…Olhando para quem descansa ou se diverte, Fernando, ninguém parece dar por aquele monumento da natureza…
Agora, tenho uma árvore mesmo aqui à frente da janela. É só levantar o olhar e lá está ela. Mas não se distingue dos outros chopos doentes que inundam esta cidade. Veio porque o trouxeram, pela mão de quem sabia nada de árvores, cidades e poluição, sofre nesta confusão de fumos, alcatrão e calçada, apresenta sempre um ar doentio, deixa cair pernadas quando o vento cresce…uma árvore triste, Fernando. Um destes dias vão matá-la, está escrito nos seus troncos decrépitos. Espero que venha outra para o lugar dela, porque os homens não conseguem viver sem árvores…
Um frutuoso abraço.
António Martins Neves



Nunca colocarei cortinados nas janelas que tenhas árvores em frente…é uma forma de lhes prestar homenagem…