As alcunhas como elas são

Peixeiro Fernando,

há uns tempos atrás fizeram questão de me mostrar uma folha, muito dobradinha, a rasgar-se já pelos vincos de tanto andar na carteira. Abri cuidadosamente e vi logo que era coisa antiga, mas batida à máquina. Com alguma insistência lá consegui correr à fotocopiadora mais próxima e salvar a prosa numa cópia. Quero que conheças a obra. Não sei quem é o autor. Investiguei, mas ninguém me conseguiu dizer quem deu à luz a pérola, porque gostava de o dizer aqui, se ele me autorizasse a publicação. Como desconheço, cá vai na mesma, porque tu tens que saber o que são alcunhas a sério no Alentejo.

As pessoas de que fala o texto existiram todas e muitas ainda estão vivas. A história não sei, mas não me espantava que tivesse sucedido, assim mesmo.
Cá vai, tal como está no papel:

Há anos atrás…

O João Núncio, de Alcácer do Sal, tinha ao seu serviço um ferrador, em que depositava toda a confiança, para ferrar o seus cavalos, com que toureava.
Um dia esse ferrador adoeceu e, como havia um cavalo que tinha de ser ferrado urgentemente, o Núncio disse a um criado:
- Vais a Grândola com o cavalo e pergunta onde é a oficina do Pato, para que ele ferre este cavalo.
O criado veio a Grândola com o cavalo, descarregou-o na saibreira, à entrada da vila, e, vendo um velhote a apanhar papéis, a ele se dirigiu:
- Bom dia, amigo.
- Bom dia – disse o velhote – eu sou o velho Cuco.
- Pois, amigo Cuco, é capaz de me dizer onde é a oficina do Pato, o ferrador?
- Olhe – disse o Cuco – vai sempre em frente e, ali à direita, vê logo os jeitos da oficina. Não tem nada que enganar…
O homem lá seguiu com o cavalo pela rédea e logo deu com a oficina.
À porta estava um homem, ao qual se dirigiu:
- Bom dia. É o senhor Pato?
- Não – respondeu o outro – eu sou o Pinto.
- Então o senhor Pato? – perguntou o criado do Núncio.
- Olhe – disse o Pinto – esteve aqui o Engenheiro Pardal também a perguntar por ele e ficaram de se encontrar à do Pintassilgo, acho que por causa de uma mula lá da Escola do Cruz.
Então, o criado do Núncio, deixou o cavalo na oficina do Pato e lá foi ao Pintassilgo perguntar pelo Pato, onde lhe disseram:
- Pois, o Pato esteve aqui com o engenheiro Pardal, mas acho que foi à do Galinha por causa de umas botas que tinha lá a arranjar…
Perguntou onde era o Galinha e lá foi!! O Galinha então disse-lhe:
- Olhe o Pato esteve aqui, sim senhor, até levou umas botas que estavam arranjadas, mas disse que ia à do Gavião ver se já lhe tinham cortado umas tábuas…
O criado depois de ficar a saber onde era o Gavião, lá foi perguntar pelo Pato:
- Não esteve aqui o Pato?
- Esteve, esteve – disseram-lhe. Mas saiu há pouco com o Pombo. Talvez o velho Ganso, que vai ali, lhe saiba dizer para onde foram, vi-os sair daqui.
Então, dirigiu-se ao velho Ganso, que lhe disse:
- Vi o Pato sim senhor! Olhe, foi além em direcção da casa do Corvo. É melhor perguntar lá.
Lá foi então, à casa do Corvo, onde lhe disseram:
- Esteve aqui sim senhor!! Mas foi para cima com o Franganito. Olhe, vai além o Zé Rola, talvez ele tivesse visto para onde foram…
Perguntou ao Rola:
- Viu o Pasto?
- Vi, pois, até estive a falar com ele. Parece que ia almoçar à da Pombinha. Vá lá, que talvez o encontre.
Foi então à tasca da Pombinha, onde lhe disseram:
- Esteve aqui, mas lembrou-se que tinha que ir à Câmara falar com o Gaio, por causa das andorinhas que lhe estragavam a casa toda.
Então o homem desorientou-se e saiu barafustando pela rua. Vendo aquilo, disse-lhe uma velhota:
-  Que é isso homem??
- Bolas, aqui em Grândola é só passarada??!!
- Pois olhe…disse-lhe a mulher – Eu sou a velha Cegonha!!!!  

Um forte aperto de ossos.

António Martins Neves