Arreia Valente no Tavares – Patrocínio “P”
4 comentários Publicado por António Martins Neves 30 Novembro 2007 em Portugal.![]()
Saudoso Fernando,
era mesmo isso que me apetecia, um alpendre ou uma latada, um petisco, um rádio a tocar mornas, cachupa ou mesmo cachola grelhada, vinho tinto, ou porque não grogue…bela companhia, melhor conversa, uma noite quente…Mas o que anda aqui à volta na cabeça é algo menos aprazível e muito pouco digestivo. Quero falar-te da polémica que opõe Miguel Sousa Tavares a Vasco Pulido Valente.
A coisa ganhou proporções desmesuradas por motivos ínfimos, pelo menos atendendo ao muito que tem sido publicado. Os homens não se suportam, as verdadeiras origens de tamanha obsessão não as conheço, mas a “guerra” já leva páginas e páginas de jornais e revistas, entrevistas na televisão…
As acusações não são mimos, ao contrário do que possas imaginar. Mas avaliemos os factos. Sousa Tavares escreveu um livro que vendeu 300 mil exemplares (julgo, pelo que dizem), um recorde absoluto para a obra chamada “Equador”. Agora deu às máquinas um segundo romance, que já vai em 100 mil volumes vendidos. Temos portanto 400 mil livros espalhados pelo país. Partindo do princípio que vão ser lidos, o jornalista fez mais pela leitura em Portugal do que quase todos os escritores portugueses juntos nos últimos dois anos. Não falemos da qualidade da obra, por que não sou crítico e nessas coisas é preciso saber dizer umas coisas que ninguém entende para ser levado a sério. Dirias tu que estamos perante um sucesso literário. Só que não és o Vasco Pulido Valente, porque ele diz dos livros do “inimigo” o que o Maomé não disse do toucinho. A revista Sábado de quinta-feira dedicou uma data de páginas ao despique e citam lá testemunhos que asseguram que Valente terá arrasado a obra recordista de Tavares sem ter passado os olhos pelo livro. Isso depois é negado. Agora, a contenda renasceu quando o cronista do Expresso deu à luz novo romance. E porquê? Para deitar gasolina numa fogueira que não tem motivo aparente para arder, o director do Público convidou Valente, cronista do jornal, a escrever sobre o livro do autor que não esconde “odiar”… Estás a ver o alcance da coisa. Sabendo de antemão que alguém vai tentar arrasar outro, o director de um jornal dito de referência decide convidá-lo a escrever sobre o romance do seu odiado de estimação. E intitulou a prosa, saída sábado passado, assim: “O Novo Livro de Miguel Sousa Tavares lido por Vasco Pulido Valente – Vale pouco ou nada como romance histórico, é pobre e vulgar como romance de família”. Este título foi da autoria do Público, atenção. Recuemos dois passos: Sousa Tavares foi cronista do Público muitos anos e saiu para o Expresso. Pulido Valente escreve agora três prosas semanais para o jornal onde o “inimigo” já deu asas à crítica, um diário que decidiu passar a chamar-se “P”, a bem dizer.
Se disser que houve aqui vontade de ver mais sangue num ódio antigo da parte do director do Público vais acusar-me de conspiração. Mas haverá outra explicação, Fernando? Convidavas o meu maior adversário para comentar o que quer que fosse que me saísse da mente sem ser para me deitar um balde cal em cima?? Não me convenço.
Na troca de galhardetes, Tavares diz que Pulido, que uma vez foi secretário de Estado da Cultura cerca de um ano, em 1980, lhe propôs, depois de deixar o cargo, que escrevesse sobre a “magnífica obra” que deixara ao país naqueles meses que estivera no Governo. Pulido, valente, não comenta. Tavares conta que recusou, como jornalista, escrever por por encomenda como o outro lhe propôs. Vasco sai fraco da contenda, na qual todos perdem. Mas uma coisa quero que fique claro: Miguel Sousa Tavares publicou dois livros, duas obras discutíveis como as outras todas, que puseram centenas de milhares de pessoas a ler. Vasco Pulido Valente, a quem gostava de ver o nome que vem no bilhete de identidade, não consegue ser conhecido por mais do que arrasar tudo e todos, afirmar que desde o Século XIX não se passa nada de interessante neste país – exceptuando, digo eu, a sua passagem pelo governo e como deputado do PSD, posteriormente – tem as opiniões que lhe apetecer, como qualquer mortal, mas tem “palco” de várias páginas para desancar no seu inimigo de estimação, convidado pelo director. E principescamente pago, imagino eu. Sabes o que te digo: o “P” está a ir ao fundo, mas não quer ir sózinho. Quer valentes com ele!
Um lúcido abraço.
António Martins Neves


António, boa carta, só não percebo a embirração com o facto de VPV usar um heterónimo e proteger a sua identidade — mesmo que as razões do heterónimo passem pela vaidade pessoal.
Não li nenhum dos livros de Sousa Tavares. Dizem-me as minhas fontes próximas que ele é bom escritor. Vasco tem algum peso para criticar um romance que é apresentado como histórico, mas tal crítica será sempre um pau de dois bicos: um romance histórico é em primeiro lugar um romance e não tem preocupações com o rigor, ao contrário do que se passa com um livro de história escrito por um historiador (e quantas vezes estes pintalgam as zonas obscuras ou desconhecidas recorrendo aos seus “dotes” de escritor).
No caso vertente, eu aponto para o bico da dor de cotovelo. Vasco gostava de ter o sucesso que atribui a Miguel.
Ora, nunca li um livro do MST, excepto dois continhos de uma coisa-qualquer-croquete-que-tinha-a-vontade-de não-deixar-morrer-o-petisco-pelo-meio. Não era boa literatura!
Do Vasco-que-não-é-Pulido-nem-valente-mas-qualquer-coisa-tipo-Silva-ou-Santos, idem. Isto falando de livros.
Mas todos nós devemos uma coisita ou outra a ambos. E porque são dois, pelo menos duas coisinhas deveremos.
Eu, por mim, acho que, mesmo vivendo duas vezes 100 anos, faltar-me-à tempo para ler tudo aquilo que vale a pena ler, espalhado por milhares de estantes e prateleiras por esse mundo fora, para me inquietar com estes malabarismos.
Mas tenho uma tese. O Valente e o Tavares estão conquetenados num único propósito. Venderem-se um ao outro.
E nisso são mestres. E dos raros, daqueles que só havia no século XIX.
Mas a verdade é que a opinião que têm sobre os dias estafados em que o país vai atravessando este gregoriano mapa do tempo, não é irrelevante. Valem por isso. Quanto aos livros, nem um nem outro farão História.
Um, não consegue escrever um bom livro, tendo em conta os seus requisitos(o Valente), o outro viverá eternamente na dúvida se os 400 mil vendidos até agora foram de facto lidos e se o que vendeu foi a capa com a sua fronha larócas ou a sua potência literária. Enfim, com o mal de um, o outro não poderá viver descansado.
Mas, ó António, o Valente já admitiu, na revista do Expresso, acho eu, que sim, que pediu ao tavares pata que este fosse o seu cronista. Humilhante, claro… mas para quem???
Olá, Ricardo.
Façamos a conta do deve e haver. A história, espero eu, vai sustentar-se em factos, como só pode, e explicar o que cada uma das criaturas andou a fazer pelo mundo. O povo avaliará, friamente, e alguém há-de fazer esse balanço.
Um forte abraço e os maiores sucessos para o futuro. Conta sempre.
Olá, Paulo.
Tenho uma enorme dificuldade em entender porque razão as pessoas hão-de querer esconder a sua identidade pessoal no dia-a-dia. Porque não gostam do nome que têm, porque preferem outro mais comercial e lhe trará maiores dividendos na sua vida profissional ou artística? No primeiro caso, creio que se resolve a questão no Registo Civil.
Quando a situação surge da parte de alguém que diz fazer da frontalidade uma espécie de arma que brande a todo o momento, a coisa ganha outros contornos. Aí parece-me menos aceitável ainda. “Esconder-se” atrás de outro nome ou fazer-se passar por descendente ou familiar de personalidades com algum peso na História…Mas, como também refiro na “carta”, suspeito apenas que isso se passe com Vasco Pulido Valente. Se calhar meio-mundo sabe isso. Eu só ouvi alguém referir-se ao assunto…