Cinéfilo Fernando,
o início de uma campanha eleitoral que vai durar quase cinco meses ofuscou um facto que nos deve orgulhar bem mais do que as prestações de quem foi para a rua pedir que nos lembremos deles nas urnas de voto, que eles prometem esquecer-se de nós nos quatros anos que se seguem. Pela primeira vez, um filme português ganhou um primeiro prémio (Palma de Ouro) do Festival de Cannes. Certo que é uma curta-metragem de 15 minutos, mas como os filmes não se medem aos palmos e os prémios também não, fiquei orgulhoso. Mais ainda por “Arena” ter sido a estreia profissional de um realizador de 26 anos, chamado João Salaviza. Já vi e gostei.
Não sei quantificar o quanto me agradou. Reparo apenas que nesta nossa longa correspondência, ao que me é dado recordar, nunca te falei de um filme. Achei que este merece. Antes de tudo porque é bonito, esteticamente. Tem tons quentes, uma luz mediterrânica, fazendo jus às origens (desculpa lá, mas o Atlântico não monopoliza as minhas preferências). Há uma cena que gostaria de ver nos anais da história do cinema feito em Portugal. É filmada de longe, quase em contra-luz e decorre numa daquelas passagens aéreas que ligam dois prédios e costumam existir nos chamados bairros sociais. A câmara não se mexe. Uma discussão, violência, e uma bicicleta que é deixada cair para um chão que apenas se ouve e adivinha.
Pois, e a história, perguntas-me tu. Bem, tenho que começar por te deixar claro que não sou cinéfilo encartado nem aspiro a isso. Daí que olhe para um filme com os filtros que se me foram instalando no “olhar” ao longo do tempo e que nada têm a ver com as credenciais exibidas por quem se dedica a “mostrar” filmes aos outros. Eu vi lá uma história com forte cariz homossexual, que está a longa distância de ser tema que me entusiasme. Um adulto jovem, que faz tatuagens e mora num bairro pobre está em prisão domiciliária, com pulseira electrónica – é roubado por rapazes vizinhos. Pese embora a diferença de idades e de vivências, o líder desse grupo manifesta um anormal ascendente sobre o protagonista. Desrespeita-o de uma forma afrontosa. Parece saber dele mais do que nos é mostrado. A vítima parte para a vingança, consegue passar à situação de domínio sobre o assaltante, mas cede. Nunca se percebe claramente porquê, mas há algo que o trava. E nem chega a reaver o dinheiro. Depois há sempre muitos corpos no filme, sempre masculinos. Nunca se vê nem se adivinha qualquer presença feminina.
Em minha defesa, deixa-me dizer-te que escrevo isto sem ter lido uma linha de crítica sobre a obra de João Salavisa e que vi a curta-metragem uma única vez. Uma certeza: fico à espera do seu próximo filme e gostaria que não demorasse.
Um luminoso abraço.
António Martins Neves



