Anedota parlamentar

Avisado Fernando,

seria uma anedota se não tivesse ocorrido realmente: um deputado do PSD disse que era bem pago e tinha boas condições para trabalhar. O que é que ele foi dizer! Os colegas obrigaram-no a retractar-se publicamente e a voltar atrás nas afirmações pelos parceiros de bancada. Um jornal gratuito, dos muitos que pululam por aqui, até fez manchete com a história com base num despacho da Agência Lusa, mas assinado por uma jornalista deles… Aquele antigo problema dos muitos jornalistas que se apropriam do trabalho alheio só porque o pagam e por isso acham que passa a ser deles a notícia que outro escreveu. Chama-se plágio. Se tivessem que ir a tribunal ia ser lindo…

“Sabe aquela do deputado que pediu desculpa por ter dito a verdade?”, interroga-se em manchete hoje o Meia Hora, um dos muitos jornais que são agora oferecidos aqui no metro, nos semáforos, onde há grande concentração de pessoas.

O título é forçado. O deputado, um rapaz de 30 anos que veio de Aveiro para substituir o anterior presidente do PSD, Marques Mendes, que desertou da política activa, disse o que achou, mas isso não passa de uma opinião, que o jornal considera como um dado adquirido: os deputados ganham bem e têm boas benesses. Há quem concorde e quem não aprove.

André Almeida é dos que não teve dúvidas em dizer que ficou espantado com o ordenado que lhe pagam e com as ajudas de custo, que “chegam perfeitamente para o que um deputado faz”, disse ele numa entrevista ao Jornal de Notícias.

Achava. Porque a velha guarda do PSD caiu-lhe logo em cima e nem lhe valeu o direito à emissão de opinião. O “ataque” foi liderado pelo portista Agostinho Branquinho que alegou, pelo que foi noticiado, que as coisas não eram assim porque ele tinha esperado mês e meio pela instalação do correio electrónico. Ficamos sem saber se tinha sido pela criação da conta, instalação do programa no computador portátil de que dispõe oferecido pelo Parlamento…

O certo é que o seu companheiro de Assembleia não podia dizer que se sentia bem e estava contente com as contrapartidas de ser deputado… Lá foi o rapaz humilhado e obrigado a dar o dito por não dito e a pedir desculpas. Mas alguém tem que pedir desculpas por emitir opiniões? No Parlamento? E faz-se por lá muito mais do que dar opiniões? Só se podem dar as que convêm? Um eleito não é livre de falar e dizer o que pensa e sente?

Parece que não, Fernando. E no PSD ninguém mais disse nada que fosse tornado público sobre o assunto. O líder da bancada, Santana Lopes, relata a Lusa, deu o assunto por encerrado depois de Branquinho ter feito a vida negra ao jovem deputado aveirense.

Diz o mesmo jornal gratuito que cada representante da nação no parlamento recebe 3.708 euros mais dez por cento de despesas de representação, mais os abonos de transporte entre as residências dos eleitos e o Palácio de S. Bento. Pode-se achar pouco, assim-assim, muito, exagerado…Mas não se pode dizê-lo? É daquela casa que vêm estes sinais de onde se houve dizer que é preciso dignificar a democracia. E depois dão uma rebocada destas em alguém que diz o que pensa, que é para isso que lhe pagam e nele votaram os eleitores, em teoria. Uma bela anedota, esta que te trago hoje. Correm fortes as águas de quem diz que o partido do Governo (PS) quer controlar tudo e todos para não ver beliscada a sua postura de poder. Mas com o maior partido da oposição a ter tiradas destas, já percebeste quem são as pessoas que fazem a legislação que gere o nosso país, Fernando. Espero que tenhas gostado da…notícia.

Um crítico abraço.

António Martins Neves


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