Alto e pára a morte!

Ponderado Fernando,
a loucura que grassa por aqui é outra: não a violenta e gratuita, mas a institucional. São aqueles que recebem para nos tratar bem que acabam a desprezar-nos de tal modo que depois as vítimas morrem. Aponta-se o dedo ao Governo, mas depois há erros dos técnicos. Atente-se o caso do homem de 79 anos a quem foi dada alta no Hospital de Vila Real e colocado num táxi, quase nú, apenas coberto com um casaco que a mulher despiu para o cobrir, de acordo com a RTP. Voltou poucas horas depois, para morrer na mesma unidade que o mandara para casa.
Diria que o desnorte se instalou por aqui e quem tem responsabilidade e capacidade de por termo aos caos instalado no sistema de saúde do país ou toma medidas rapidamente ou segue o caminho das outras vítimas do sistema. Estamos cansados de saber de casos de bebés que nascem em ambulâncias a caminho de maternidades, porque as que existiam mais perto da residência das mães fechou; doentes que levam mais tempo a socorrer do que o exigível e…morrem. O ministro a isto diz nada. Apenas que quer gerir melhor os dinheiros aplicados no Sistema Nacional de Saúde e torná-lo mais eficaz. Ninguém entende como, e com estes resultados nem o próprio António Correia de Campos conseguirá alguma vez convencer como se faz melhor com menos, fechando urgências e maternidades e não criando estruturas capazes de tapar o buraco aberto…
Isto é tudo muito grave, incompreensível, tanto mais que quando a poupança anda à frente da procissão, é desprezado um santo que quer entrar no desfile dos crentes. Foi esta semana proposta a prescrição de medicamentos por dose, o que permitiria que o médico receite ao paciente o número de comprimidos ou ampolas de que necessita, apenas e só, e não uma caixa enorme cheia de pastilhas que acabarão por terminar no lixo (por a maioria ser desnecessária), depois de terem sido pagas pelo utente e pela comparticipação estatal. A isto, que pouparia milhões ao fim do ano, ao Governo e aos doentes, o Executivo disse não, contrapondo que está a tratar do assunto há muito tempo. Demais, diria eu. História nada credível…
Agora mais escandaloso que isto tudo foi o acabei de ouvir no telejornal da RTP: no hospital de Vila Real chamaram um táxi para levar a casa um doente a quem deram alta depois de ali entrar com problemas respiratórios. Com 79 anos, o homem estava numa maca, donde a falta de forças o impedia de se levantar e só a insistência do estupefacto taxista terá levado a que cedessem uma cadeira que o levasse até à viatura, quase nú, com as “partes” à mostra, como testemunham os entrevistados. E isto acontece em Trás-os-Montes, Fernando, a região mais fria do país. Claro que passadas poucas horas estava de volta ao mesmo hospital para…morrer.
Razões para isto? Descontrole absoluto? Gente insane em cargos de responsabilidade? Não quero arriscar explicações para aquilo que não parece ter. Quando se instala a guerra depois dos partos nas ambulâncias, nos acidentados que morrem porque o socorro não chega a tempo, este caso é uma cereja num bolo amargo, como a morte. E esse bolo está a ser cozinhado pelos responsáveis por zelar pela nossa saúde. E terão que o comer, nem que seja para repetir aquela caricata e triste cena do político que atafulhou o “forno” para não ter que responder aos jornalistas…Se alguém assume responsabilidades neste país, tem que se chegar à frente, porque a anarquia tem limites e está muito mais em causa do que jogos de poder ou interesses pessoais ou financeiros…

Um adoentado abraço.

António Martins Neves


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