“Alonso das Beiras” usa batina
Publicado por António Martins Neves 26 Março 2007 em Portugal.Prezado Fernando,
os assuntos da religião não costumam ocupar-me muito tempo, mas desta vez não consegui seguir em frente sem olhar pró lado, ignorando o que se passa à minha beira e que mete Papa (sim o do Vaticano!) e tudo!. E achei que ias gostar de conhecer a história de um padre “radical”, acelera e…irresponsável.
Por estes dias chegará à caixa de correio de Bento XVI uma carta invulgar. A uma organização portuguesa que se preocupa com o caos que impera nas nossas estradas – e mais ainda pelas suas consequências – achou que um padre a exercer em Santa Comba Dão, terra do Salazar, está a ultrapassar os limites do civismo e concluiu que o assunto devia ser do conhecimento do líder da Igreja Católica.
Tudo porque o dito cura, de 42 anos, tem um bólide com 150 cavalos, único em Portugal, e não quer a viatura propriamente para circular enquanto contempla as bucólicas paisagens rurais beirãs. Não! O sacerdote quer a máquina para tirar proveito dela e “abrir”.
O texto da Associação de Cidadãos Automobilizados (ACA-M) acusa o padre António Rodrigues de se vangloriar que gosta de ir para o “picanço” na auto-estrada A25, que já foi conhecida por estrada da morte, imagina, que gosta de sentir a adrenalida da velocidade, a potência ali, debaixo do pé, pisar-lhe os calos e máquina corresponder.
Quando a história surgiu, contada pela agência Lusa, através da pena do teu antecessor aí na Praia, o Ricardo Bordalo, o assunto, como não podia deixar de ser, ganhou proporções a grande velocidade.
Confessa o pároco que a grande justificação para ter encomendado uma máquina única em Portugal é a necessidade de acorrer aos crentes de três freguesias e sem uma “bomba” assim não conseguia iniciar as missas à hora prevista. E um padre que não cumpre horários tem maior dificuldade em ser aceite pelo rebanho, alega.
Isto, dito assim, não parece pecado. Só que houve quem fosse cavar mais fundo e tivesse ouvido da boca de um pastor de almas o que já pouco soa do comum dos mortais.
A ACA-M informa o Papa que o seu súbdito se orgulha de ter um carro que chega facilmente aos 210 quilómetros por hora (o máximo permitido são 120), pelo que se presume já se ter assegurado que máquina corresponde sempre que sente o pé lá no acelerador, gaba-se de nunca ter sido multado, “graças a Deus” claro, e diz que outra das utilidades da bomba é levar jovens das aldeias a dar umas voltas…
Imagino o Papa a ler a carta e a ficar rubro, da cor daqueles sapatos Armani de que tanto gosta.
Como se não bastassem estas autênticas heresias, a associação fez as contas e disse que as três freguesias onde este autêntico “Fernando Alonso das Beiras” celebra missa distam uns escassos 13 quilómetros entre si. Se o Campeão de Fórmula I espenhola soubesse o adversário que a fé lhe evitou… Pelas terras de Santa Comba deve-se ter tornado comum, em vez de se reagir ao toque insistente de uma buzina com um “Olha, chegou o padeiro”, os crentes devem arregalar os olhos quando ouvem o roncar dos 150 cavalos e gritar “Lá vai o padre a voar baixinho”. Sim, e se tivesse mesmo umas asas o destino seria seguramente o céu.
E agora perguntas tu: mas que fazer a um padre “adrenalidodependente” que acha normal colocar sua a vida e a dos outros em risco?Roubar-lhe a chave do carro, estrangular o tubo da gasolina, meter-lheuma batata no escape?
Bom, já que a GNR não o conseguiu ainda apanhar na corrida, pode ser que o “chefe” o chame à razão. Por mim, Fernando, tirava-lhe a carta, punha-o a andar a pé e obrigava-o a dizer missas de graça em memória de crentes mortos em excesso de velocidade. Ah, e queria ouvi-lo em confissão. Os “caminhos do senhor” não podem ser percorridos assim, a ver a estrada afunilada e de batina a esvoaçar…
Um abraço, mas sem velocidades!
António Martins Neves


