Alcunhas tratadas

Verdadeiro Peixeiro,

ano novo, histórias antigas. Andei aqui a dar voltas ao baú das memórias e encontrei esta que vais gostar de recordar. O tema dispensa apresentações. (Texto adaptado de original publicado na Lusa).

Um alentejano sem alcunha é uma autêntica raridade. Até mesmo a falta de epíteto pode originar o baptismo. Aconteceu com o “Graças a Deus”, que evocava o Senhor por não ter alcunha e com “Mestre Levezinho”, que receava ter uma alcunha “pesada”.”Pode-se dizer que não há um alentejano que não tenha alcunha, nem que seja familiar”, garante o antropólogo e ex-presidente do Conselho do Departamento de Sociologia da Universidade de Évora, Francisco Ramos, que reuniu mais de 30 mil alcunhas nos distritos de Portalegre, Évora, Setúbal e Beja.
A grande vantagem das alcunhas no Alentejo é a identificação directa dos visados. No Sul do país, essencialmente rural, é frequente vários habitantes da mesma localidade terem nomes próprios
iguais (António, Manuel, José, Joaquim) e os apelidos também serem muitas vezes os mesmos (Pereira, Silva).
Neste cenário, as alcunhas permitem identificar imediatamente o indivíduo, além de ajudarem, muitas vezes, a definir o seu “perfil”, explica Francisco Ramos.
Na sua maioria, as alcunhas dos alentejanos são comportamentais – criticam atitudes ou hábitos dos visados – e têm muitas vezes um carácter punitivo do ponto de vista social.
O “Águia Real”, por exemplo, ganhou a alcunha por ser um indivíduo que, quando participava nos petiscos, muito comuns na região, comia muito e de tudo. A uma mulher que tinha muitos filhos, cada um de seu pai, chamaram-lhe “Joana dos Moços”, o “Caga Lume” deve a alcunha ao seu emprego de acendedor dos candeeiros da iluminação pública quando ainda não eram electrificados. Mas dentro das alcunhas comportamentais, existem algumas que surgiram devido a uma situação única: “Teta” foi assim “baptizado” por uma vez ter mamado numa cabra, enquanto o rapaz cuja mãe foi vista com o amante junto a uma ponte passou a ser conhecido pelo “António da Ponte”.
O segundo grande grupo é o que inclui as alcunhas de origem física ou anatómica, que podem ir desde o “Maneta”, para o indivíduo que não tem uma mão, ao “Bate Estradas”, por ter os pés grandes,
“Melanito”, por o visado ter o pénis grande, ou “Badalinho”, por ter o pénis pequeno. Há ainda casos onde se cruzam as alcunhas físicas com tecnológicas, uma outra variante detectada, de que um exemplo é a Schick-Pivot”, mulher com barba, ou o “vidrão”, homem gordo e baixo. Logo a seguir surge o grupo das alcunhas geográficas, que, de um modo geral associam os visados aos seus locais de origem: o “Galego” é alguém que migrou do Norte do país, enquanto o Carlos do Azinhal ficou assim conhecido por ter nascido no Monte do Azinhal. Outra característica das alcunhas é o seu cariz ofensivo, o que leva a que de uma forma quase generalizada, a designação seja apenas utilizada nas costas do visado, que não assume o baptismo ou apenas o permite a um grupo restrito de pessoas que estão mais próximas de si socialmente, o que lhe confere a “regalia” de o tratar pela alcunha.
Este projecto, financiado pela Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) e pelo Instituto Camões, obrigou a um trabalho de recolha que envolveu, durante dois anos, cerca de uma
dúzia de colaboradores no terreno, entre os quais licenciados ou finalistas da Universidade de Évora.
Os dados recolhidos, posteriormente estudados e tratados cientificamente por Francisco Ramos e Carlos Alberto Silva, mestre em Sociologia, e irão dar origem à publicação de um livro.“Só recolhemos 30 mil alcunhas porque apenas trabalhámos nas sedes de concelho. Se tivéssemos descido ao nível de freguesia, o número seria muito maior”, explicou Francisco Ramos à Agência Lusa. Um grande espírito de observação e a perspicácia que, segundo o investigador, caracterizam as populações alentejanas, são as explicações apresentadas para justificar a profusão de alcunhas.
O “Bombeiro” ficou assim conhecido por ter o hábito de andar sempre a “lançar a escada” e a “atirar-se” às raparigas, enquanto o
“Tarifas” ganhou a alcunha por ser filho de um taxista. Já o “Avança Leão” foi alcunhado devido à reacção que tinha, quando se embebedava, de pegar numa faca e enfrentar o gato, gritando: “Avança Leão! Mulher e filha para trás do Tarzan”. Menos directos e mais elaborados são os casos das alcunhas dos indivíduos conhecidos por “Espinha de Menina”, por não gostar de trabalhar, ou “Apaga Velas”, devido à sua elevada estatura, comparável com o artefacto utilizado para apagar as velas colocadas em pontos altos das igrejas. Estão neste grupo também a “Roma Cidade Aberta”, alcunha erudita para qualificar mulher que mantém relações com vários homens, ou “Rotshilde”, epíteto depreciativo de uma família muito pobre, por oposição com os célebres milionários americanos. Ainda no grupo dos antagonismos, regista o caso de “Extravagante”, alcunha de homem muito forreta, ou “Miss Simpatia”, atribuída a uma rapariga antipática.
Embora não haja levantamentos tão exaustivos como este noutras regiões do país, Francisco Ramos, com base em caos que conhece em
concelhos do Norte, considera que a maioria das alcunhas é constituída por um só nome e de origem geográfica: galego, espanhol, algarvio. No Alentejo, ao contrário, podem ser constituídas por uma frase, como sucedeu com a mulher que confessou os problemas sexuais com que se debatia por o marido ter o pénis muito grande, o que lhe valeu a alcunha “Tira, Tira Que Já Dói”. Outros casos são os da alcunha “Maria Queres Mais Chá”, atribuída a uma mulher que gostava muito daquela bebida, ou do indivíduo baixo que passou a ser conhecido pelo “Retrato de Meio Corpo”. Curioso é o facto do universo das alcunhas não estar em perigo de desaparecer, como se poderia admitir, devido à evolução social e cultural do Alentejo. Francisco Ramos sustenta esta ideia por não se registar actualmente, nem ser previsível, o aumento da população alentejana. Assim, a estrutura social vai manter-se e os filhos irão continuar a cumprir a tradição dos pais. Fica assim assegurado que o “Melanadas” vai continuar a ser
recordado como vítima de uma agressão com um melão na sequência de uma demanda conjugal. E que o “Carralho” continuará a ser “penalizado” por ser descendente de um homem que carregava muito nos
erres.

Um parte-costelas.

António Martins Neves