Cavaleiro Fernando,
anda alto o debate político pela terra da morabeza, quando as questões que motivam governantes e oposição são os burros, esses simpáticos animais, que tanto quanto sei deveriam ser bem mais respeitados aí, onde têm um papel fundamental nalgumas zonas onde foram promovidos ao estatuto de aguadeiros “independentes”. Por cá, não há animais de cabelo a estimular o suposto debate político, mas há muita caricatura, onde os burros cabiam perfeitamente. Deixa-me advertir-te que se passares um ano sem regressares, corres o risco (embora pouco provável, segundo as sondagens) de encontrares o teu país amputado. Com menos duas ilhas. Verdade! Disse o líder do PSD, Luís Filipe Menezes, que se for eleito primeiro-ministro - coisa que ainda há dias dizia não merecer, por enquanto - que vai dar “autonomia sem limites” ao arquipélago da Madeira, que inclui Porto Santo. Depois lá disfarçou, dizendo que a política externa, a defesa, a segurança e a justiça continuariam a depender do Governo da República. O resto ficaria à mercê da “vontade e imaginação” dos madeirenses, mas também dos açorianos, aparentemente para colocar em pé de igualdade os dois aqruipélagos, muito diferentes em todos os aspectos.
Para quem acreditar em coincidências, no dia antes destas palavras serem proferidas por Menezes, o homem - não me consigo esquecer disto - que prometeu numa conferência de Imprensa “familiar” abandonar a política e agora quer liderar os destinos do país, uma figura supostamente madeirense chamada Rui Alves, que preside ao Nacional, um dos dois clubes do arquipélago que disputam a Liga portuguesa de futebol, ultrapassou pela direita o líder local há 30 anos, João Jardim. “Os madeirenses não gostam dos portugueses”, saiu-lhe da garganta antes de garantir que vai deixar o país em 2011, quando o actual líder do Governo abandonar o cargo, e que não gosta de falar português.
Mas fala, sem se engasgar, de “um dia, se a Madeira for independente”… Se achas que não há xenofobia no discurso do homem, então lê:” Não tenho dúvidas que os portugueses não gostam dos madeirenses e os madeirenses não gostam dos portugueses”. Depois não explica, claro está, de forma convincente onde foi beber inspiração para disparates ofensivos como estes nem o que o leva a tirar a mais disparatada das conclusões. Nem os madeirenses podem ser retratados na figura que manda no arquipélago há três décadas, do mesmo modo que os residentes no Continente não terão que se rever em quem dirige o Governo da República. É para isto que existe a figura do referendo, e se essa gente que reivindica estatuto de porta-voz dos seus vizinhos tivesse a coragem que insinua já tinha vindo reivindicar uma consulta popular para definir, de uma vez por todas, se os madeirenses querem continuar portugueses ou tornar as duas ilhas num país independente. Nada, zero! Ninguém tem a coragem do afirmar. Só insinuações sustentadas em ideias primárias, acirrando supostas divergências assentes na geografia. Que belas figuras nos “alegram” nestes dias chuvosos, Fernando.
Tais patranhas de um dirigente futebolístico saem a lume na véspera de uma congresso do PSD madeirense em que o presidente, sempre Jardim, recusou a cobertura jornalística, à excepção da sessão de abertura e do encerramento. Uma atitude inédita de que não me recordo ocorrer em Portugal depois do 25 de Abril de 1974. E os jornalistas acataram, cordeiramente, a imposição e fizeram a cobertura apenas do que o “grande líder” quis e tiveram muito tempo para entrevistar vários e vários dos congressistas que não quiseram repórteres a ouvi-los a debater o futuro que vão propor na rua. Não ouvi ninguém sugerir um boicote, que me parecia bem apropriado. Corrige-me, se estiver enganado. Os analistas dizem que tudo não passou de uma forma de evitar mostra à evidência o clima de facada nas costas que vai pelo Funchal entre os candidatos à sucessão de Alberto João, pelo menos entre os que acreditam que é desta que ele se vai embora (para onde?), porque já o prometeu uma vez e acabou por se deixar ficar no quentinho, donde ninguém tem coragem nem arte para o derrubar.
Se te disser que até os procuradores da República destacados no Funchal foram sujeitos a inquéritos por suspeições quando à forma como desempenhavam os cargos, talvez te ajude a entender o que se passa por aquela bonita terra.
E para animar o “bailinho”, o Partido da Nova Democracia (PND, do antigo líder do CDS, Manuel Monteiro), que tem um deputado na Assembleia Regional madeirense, apresentou, com suposto sentido de humor, uma proposta com carácter de urgência àquela câmara a propor a construção de uma estátua de Jardim com 50 metros de altura em metal nobre para assinalar o desempenho do presidente do Governo Regional nestas três décadas. Com uma “verba adequada” saída do orçamento da região, obviamente. Com tudo isto, e sem acreditar minimamente no que ouvi e li desta gente toda de que te falei, só me resta dizer: Viva a poncha! Essa sim, uma verdadeira preciosidade madeirense.

Um unido abraço.

António Martins Neves


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