Adolfo, que vai morrer longe

Caro amigo
A propósito do curso sobre bem enterrar lembrei-me de um comentário que Ricardo Bordalo, jornalista grande conhecedor de África, especialmente da Guiné-Bissau e Cabo Verde, mas também um pouco de todo o mundo, fazia há tempos a uma carta que te enviei.
Eu falava dos emigrantes e ele contou-me a história de um, português, que conheceu há pouco tempo na Dinamarca. Retive que o homem, apesar de ser um sem abrigo, é lá que quer morrer. E pensei duas coisas: a primeira que era bom que todos nós pudéssemos escolher onde e como queremos morrer, e a segunda que deverias conhecer, se não conheces, o que ele escreveu. E então aqui vai:
“Adolfo de Carvalho, 54 anos, vive há sete da recolha de garrafas nas ruas de Copenhaga, Dinamarca. Assume-se como um «sem-abrigo» com um «ordenado» invejável para Portugal
Natural de Amarante, Adolfo, conhecido nas ruas da capital dinamarquesa por ‘Porto’, em conversa com a Lusa, garante que vai «morrer nesta cidade» porque não se está a ver a regressar a Portugal para ter um emprego que, «no máximo, daria 500 euros por mês».
A explicação é simples. Todos os dias consegue, com o seu trabalho, guardar 50 euros, «no mínimo», e «comer e beber bem», apesar de dormir na rua, «onde calha». Um «príncipe» português que admite «reinar» nas ruas da capital dinamarquesa.
O seu «banco», onde guarda as poupanças diárias, é uma casa de banho pública, que, em Copenhaga, dispõem de cacifos que podem ser alugados ao mês, guardando os restantes haveres num carrinho de mão.
Este pequeno carro, coberto com um oleado verde «porque chove muito nestas terras», serve-lhe, ao mesmo tempo, para recolher e transportar garrafas vazias que, depois, vende por entre uma e três coroas dinamarquesas cada (entre 15 e 40 cêntimos de Euro).
Adolfo de nada se queixa, até porque todos os anos faz «duas a três semanas» de férias em Portugal e «só» viaja de avião.
Já não tem família em Portugal, mas todos os anos visita um «bom amigo» que tem em Matosinhos.
Adolfo prefere ser sem-abrigo na Dinamarca do que regressar à sua antiga vida em Portugal, apesar de ser um «funcionário público» com uma licença sem vencimento «por 10 anos», sendo o seu antigo local de trabalho uma escola de Amarante, onde está(va) colocado como electricista, a sua profissão.
«Não, não me estou a ver regressar a Portugal por causa dos 500 euros que os meus antigos colegas ganham. Estou bem aqui e é aqui, em Copenhaga, que vou morrer. Só espero que seja daqui a muitos anos», disse em conversa com o jornalista da Lusa.
‘Porto’, como é conhecido na cidade onde garante que é respeitado «porque se dá ao respeito» e «até onde a polícia já o conhece e cumprimenta» por saber que não é «pessoa para arranjar problemas», afirma ter «muitos amigos» que lhe dão dinheiro, mas «nunca de mão estendida» porque «mendigar, nunca!».
Antes de chegar às ruas de Copenhaga, Adolfo de Carvalho, passou por França, Holanda, Suécia «e outros países», mas em «nenhum deles» se sentiu tão bem como na Dinamarca, onde admite que um dia quer estar integrado no sistema de segurança social para poder ter um quarto que substitua as ruas, e onde quer também vender o Hus Forbi, o jornal de rua dinamarquês.
Isto porque «aqui dão aos sem abrigo um mínimo de 7.000 coroas dinamarquesas», sendo que os seus amigos «da rua» têm esse subsídio e «até mais», como é o caso de um finlandês, Asser, a quem ‘Porto’ chama ‘Esquimó’, que recebe do estado dinamarquês, «sem falta», 10.500 coroas mensalmente.
«Uma fortuna», diz Adolfo.
Adolfo é o único português a viver nas ruas de Copenhaga e garante que tem o estatuto de ser, dos actuais sem abrigo que circulam pela cidade, «o que aqui anda há mais tempo», sendo, por isso, sublinha, «um bom representante de Portugal» por estas paragens.”

E pronto, é isto! Dá que pensar não dá? Um abraço, já quase em fim de férias.

Fernando Peixeiro


1 Response to “Adolfo, que vai morrer longe”

  1. 1 ricardo

    Pois é camarada… um homem só se realiza verdadeiramente quando toma consciência de que não lhe foi possível escolher o momento da primeira luz mas que tem o “poder” de escolher o momento e o lugar da última(a morte). Interessante, vagamente metafísico, literalmente… humano.
    Mas, ó Peixeiro, o que eu achei que era mais interessante na estória do Adolfo é o tipo estar, no mesmo espaço geográfico(Europa), político e, porque não dizê-lo, cultural, apesar de não parecer, e preferir viver na rua(e faz frio em Copenhaga!!!) a apanhar os restos da noite(garrafas)pelo chão, em vez de estar no seu país, a desempenhar a profissão que é a sua(electricista), com ordenado(mais de 500 euros) certo…
    Sabes, o que está ali, não é um retrato da Dinamarca, nem do Adolfo… é um retrato de Portugal, mas visto ao espelho, tipo as ambulâncias, que têm a palavra escrita ao contrário para que o condutor da frente possa ler através do retrovisor!!! Velho camarada, aprende-se tanto a olhar para a rectaguarda! É por isso que eu, por mim, prefiro viver pelo e para o passado que em nome de um futuro que simplesmente desconheço…
    Já agora, a propósito, aqui há dias, tu ou o António, escreviam sobre a cena da miúda inglesa do Al(l)garve… Meu caro, vê bem a perfídia que seria se aqueles senhores MC Cann tivessem orquestrado uma ida ao Papa apenas para que, quando se souber a verdade, o facto de esta poder comprometer, também, no campo do simbólico, claro está, o Pontífice, levar a quem detém o poder de decidir, achar melhor reconstruir uma outra verdade… Man… I ka mim qui ta mata Cabral… abraços

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