Votante Fernando,
os chineses por cá são comerciantes, nada mais do que isso. Nós até já sabemos andar, por isso eles deslocam as atenções para os menos crescidos. No que eles não nos podem ajudar é neste problema que a democracia nos trás: a abstenção, esse vírus que corrói os regimes democráticos, esse grupo gigante de pessoas que deixa aos outros as decisões que a eles lhe cabem. E depois surgem como os maiores críticos dos políticos que ignoram. Em vésperas de eleições aqui em Lisboa, onde a abstenção promete, com eleições a 15 de Julho e, dizem os analistas, um elevado número de eleitores a trocar um dia de praia pela decisão de quem vai governar a sua cidade nos próximos dois anos, encontrei no baú uma história exemplar sobre a importância de votar. Foi em Timor-Leste – onde “regresso” frequentemente, como reparas -  e contaram-ma pessoas analfabetas a quem jamais passou pela cabeça que ir dar uns mergulhos no mar e apanhar sol podia ser desculpa para deixar que outros decidissem o futuro por elas.
Num belo dia de Novembro de 1999 conheci alguns elementos da família Cunha. Andava em reportagem lá, em Timor, e já havia reparado, quando passava num determinado ponto da estrada que liga as duas maiores cidades do país – Díli e Baucau – num local onde se destacavam uns peixes pendurados numas árvores franzinas. Era à beira-mar e tratei de perceber o que se tratava. Disseram-me que era peixe grelhado e depois conservado, apanhado e cozinhado pelas raras pessoas que se viam por ali na beira da estrada.
Um dia decidi parar e fui perceber qual era o negócio que os mantinha junto àquela língua de asfalto estreita, onde decorriam horas e horas sem passar vivalma.
Descobri que eram membros da grande família Cunha. Camponeses como muitos timorenses a quem na altura os compatriotas que fizeram o jogo da Indonésia tinha destruído tudo depois de 78 por cento da população de Timor ter dito, por voto secreto, num referendo organizado pela ONU, que queria a independência e rejeitava a ocupação dos indonésios que durava há quase 25 anos.
Quando falei com o primeiro elemento da família, Faustino da Cunha, 25 anos, simpático e afável, nem me soube dizer quantos elementos tinha aquele autêntico clã. Teve que ir buscar um caderno e lá fizémos as contas: somando os nove casais da família mais os respectivos filhos eram 59.
E o que me leva a trazer hoje aqui a esta carta a família Cunha é que os adultos foram todos votar, apesar das ameaças. Mas para isso tiveram que andar dois dias a pé até Laleia, a vila mais próxima. Com as crianças todas, algumas de colo. E com o risco, provado depois, que quando voltassem tinham as miseráveis barracas onde viviam ocupadas ou feitas em cinza pelos que defendiam, pela violência, que os timorenses deviam ser oficialmente uma província indonésia. Os Cunha, como a esmagadora maioria da população, ameaçada, coagida, morta muitas vezes, percebeu cedo que no segredo da câmara de voto a sua opinião era soberana. Raros tinham alguma vez votado assim, mas entenderam isso facilmente quando as Nações Unidas lhes explicaram. E não deixaram ninguém decidir por si. Sabes o que disseram os Cunha quando voltaram a casa quatro dias depois de partir e encontraram as singelas cabanas ocupadas pelos milicianos armados? “Votámos pela independência”, e fugiram para o mato, para defender a pele, porque os parcos haveres já estavam condenados. A partir de agora, Fernando, vou contar esta história recuperada aqui do baú a cada abstencionista que me aparecer pela frente. Pode ser que entendam. Se não, vou mesmo ter que pedir aos Cunha para lhe virem explicar porque é importante votar…

Um recenseado abraço.

António Martins Neves


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